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Texto para responder às questões de 01 a 10.
Idosos são os novos invisíveis
Tenho 55 anos e minha mãe, 78. Entre nós duas, conversas sobre envelhecimento se tornaram corriqueiras. O que a gente ganha e o que perde ao longo do caminho? Como pensávamos que seria chegar até aqui? O que nos aguarda? São conversas difíceis, porque o envelhecimento traz limitações - naturais e nem por isso bem-vindas. Mas, na maior parte das vezes, a conta fecha com lucro.
Ultimamente, minha mãe tem dito que ser velha é deixar de ser vista e ouvida. "Somos invisíveis." No ano passado, eu a acompanhei a uma série de consultas médicas. Não um, mas todos os profissionais de saúde a trataram como um ser incapacitado. Enquanto falavam de sua condição, dos exames que teria que fazer, dos cuidados que teria que tomar, se dirigiam a mim. "Ela sente dor nas mãos há quanto tempo? Todos os dedos formigam? Perdeu a sensibilidade?" Minha mãe estava ali em terceira pessoa. Até que eu percebesse, fiz alegremente o papel de tradutora-intérprete. Em algum momento, no entanto, passei a virar o rosto na tentativa de obrigá-los a se dirigir a ela, a conversar com ela e a reconhecer sua existência. Foi uma medida extrema e rude mas, para minha surpresa, eles continuaram falando sem enxergá-la. Ela é uma mulher lúcida e evidentemente podia responder às perguntas. Por que os médicos preferiam falar com o vazio a encará-la?
Pessoas com 70 anos se enquadram no que os sociólogos e profissionais de marketing chamam de geração baby boomer, fruto de uma explosão populacional do pós-guerra (nasceram de 1946 até 1964 ). Caetano Veloso, Gil, Gal Costa, Paul McCartney, Rita Lee e Mick Jagger são baby boomers. Foi a geração que se criou com a idolatria pelos jovens - e eles parecem carregar sua missão de rebeldes com muita dedicação.
Em 2014, em um minidocumentário sobre gerações de mulheres que dirigi para a revista "Claudia", colhemos o depoimento de uma ex-acadêmica que tinha se transformado em executiva de um grande grupo privado de educação aos 70 anos de idade. Também tinha se divorciado e casado de novo nesta mesma idade. Era linda vivaz inteligentíssima e respeitável. Trabalhava dez horas por dia e tinha tempo para os netos. Naquele projeto, dissemos que os baby boomers, que tinham inventado tanta coisa nos anos 60, estavam reinventando a velhice. Como isso combina com invisibilidade?
Uma hipótese é que convivemos com duas categorias de pessoas com mais de 70 anos. Uma, nos encanta por ter um estilo de vida jovem. Na outra categoria estão as pessoas que tratamos como café com leite, as vovozinhas e os vovozinhos. [...]
Será que a invisibilidade dos idosos vai se manter? Em 2050, quando eu estiver quase com a idade de minha mãe, a Organização Mundial de Saúde estima que a população com mais de 60 anos dobre de tamanho no mundo. No Brasil, teremos 70 milhões de idosos, quase um terço da população, enquanto o número de crianças e adolescentes cairá de 32 milhões para 14 milhões.
Muitas dessas pessoas estarão sustentando suas famílias, filhos e netos. Muitos continuarão trabalhando, votando, dirigindo, pensando, falando e ouvindo. Pela força demográfica e econômica vão se impor, espero. E aí, quem sabe, os médicos me olhem nos olhos. Ninguém merece ser invisível.
Brenda Fucuta - 02/08/17. Disponível em: <controversia.com.br/blog/2017/08/22/idosos-são-os-novos-invisiveis>.Acesso em 15 set 2017.
No trecho: "Tenho 55 anos e minha mãe, 78.", identifica-se uma figura linguagem denominada:
elipse.
catacrese.
hipérbole.
prosopopeia.
metonímia.