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Texto I
OS TAIS HIGIENISTAS
Careta, 4 dez. 1920
1 Queria escrever uma longa carta ao Excelentíssimo Senhor doutor Carlos Chagas sobre a sua Saúde Pública e o draconiano regulamento que Sua Excelência acaba de extorquir dos poderes da República.
2 Há muitas presunções profissionais. Há a presunção literária, que é ridícula; há a militar, que é odiosa; há a médica, que é de uma lamentável estreiteza; e muitas outras, porque cada profissão tem a sua presunção e se julga como dominadora de todas as outras, sem perceber que todos os ofícios se entrelaçam e a nossa sociedade é uma rede de artes e mesteres, todos eles necessários a ela.
3 O Senhor Chagas é o mais alto representante da presunção médica.
4 Ele julga que, se há tuberculose, é porque não se decreta tal e qual lei e não se põe a sua execução nas mãos dele e de seus colegas; se há opilação é porque não se açoita o sujeito que anda descalço e não se fuzila o que não constrói fossos sépticos nos fundos do seu “tijupar” ou cousa que o valha; e, assim, por diante.
5 Todos os males da humanidade estariam curados se ela fosse governada por ditadores médicos, auxiliares acadêmicos, mata-mosquitos, etc., etc.
6 O equilíbrio de outras condições da vida atual com as necessidades da higiene, ele não vê.
7 Não vê que é preciso dinheiro para se ter boa alimentação, vestuário e domicílio, condições primordiais da mais elementar higiene; entretanto, por isto ou por aquilo, a maioria da população do Brasil se debate na maior miséria, luta com as maiores necessidades, não podendo obter aqueles elementos de vida senão precariamente, mesmo assim custando-lhe os olhos da cara.
8 Sua Excelência antes de expedir regulamentos minuciosos sobre tantos atos da nossa vida doméstica, devia ter o cuidado de facultar-nos os meios de realizar as suas exigências.
9 O que há em Sua Excelência, é o que há em todos de sua categoria: Sua Excelência nunca conheceu necessidades e afere a vida dos outros pela sua, feliz e rica.
10 Por falar nisto, lembro aqui um caso.
11 Quando morreu o professor Francisco de Castro, suspeitou-se que houvesse sido de peste, que reinava entre nós naquele tempo.
12 Os médicos da Saúde Pública quiseram verificar a cousa; mas a camarilha do doutor Castro, a cuja frente se achava o Senhor Azevedo Sodré, se opôs violentamente que cumprissem o seu dever. Chico Castro não podia morrer de peste bubônica...
13 São assim os nossos ferrabrases de higienistas à prussiana: dois pesos e duas medidas...
BARRETO, Lima. In: RESENDE, Beatriz; VALENÇA, Rachel (Org.). Toda Crônica. Rio de Janeiro: Agir, 2004. p. 237-238. v.2.
Vocabulário:
Ferrabrás: diz-se de quem gosta de se passar por valentão.
Mester: ofício; corporação profissional.
Tijupar: uma espécie de transição entre maloca e aldeia.
No texto, em relação à linguagem, emprega-se predominantemente o(a):
linguagem regional, embora se identifiquem exemplos da linguagem formal, como em “Sua Excelência acaba de extorquir dos poderes da República”
nível informal, embora se identifiquem exemplos da linguagem formal, como em “o cuidado de facultarnos os meios de realizar as suas exigências”
nível formal, embora haja exemplos de linguagem informal, como em “custando-lhe os olhos da cara”
gíria, embora haja exemplos da linguagem informal, como em “cousa que o valha”