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COLUNA DE JUAN ARIAS (24/04/2018)
Qual é a única coisa que une os brasileiros e que o poder
prefere esconder?
1 Será verdade que, como injustamente se
2 divulga no exterior, os brasileiros estão
3 divididos em tudo? Que nada é capaz de unir
4 os cidadãos de um lado e do outro do arco
5 político? Há dois brasis irreconciliáveis em
6 tudo? A julgar pelos resultados da última
7 pesquisa nacional do Datafolha, a resposta é
8 não.
9 De acordo com essa pesquisa, quem aposta
10 em um Brasil dividido em tudo deve se sentir
11 frustrado. Existe um tema que vem
12 incendiando a opinião pública nos últimos
13 anos e que se intensificou com a condenação
14 e prisão de Lula: o apoio à Lava Jato, cuja
15 continuidade é defendida por 84% dos
16 brasileiros. Apenas insignificantes 12%
17 acham que deve terminar. O Brasil todo
18 parece unido na luta contra a corrupção e
19 contra as tentativas de “estancar a sangria”,
20 sonho de tantos políticos e poderosos e até
21 mesmo de boa parte do Supremo Tribunal
22 Federal. (...)
23 Outro dado importante de uma pesquisa
24 anterior do Datafolha confirma que os
25 brasileiros concordam, quase unanimemente,
26 que a Lava Jato deve seguir seu caminho:
27 em 22 anos, é a primeira vez que a
28 corrupção é a maior preocupação do país.
29 Não é a violência? Não. A corrupção já
30 preocupava quatro vezes mais em 2015. E a
31 educação? Também não. Preocupa quatro
32 vezes menos que a corrupção. Não seria
33 economia, ou o desemprego, a maior
34 preocupação dos brasileiros? Não, a
35 corrupção preocupa cinco vezes mais. E a
36 saúde, a angústia das filas nos hospitais?
37 Nem isso. A corrupção interessa duas vezes
38 mais que a saúde.
39 Será que os pré-candidatos à
40 presidência tomaram consciência de que a
41 sociedade como um todo, pobres e ricos,
42 continua a favor da luta contra a corrupção?
43 E os governadores, senadores e deputados
44 que pretendem ser reeleitos? Terão
45 percebido os excelentíssimos magistrados do
46 Supremo que a única coisa que parece unir
47 os brasileiros é a luta contra a corrupção, e
48 quase 60% defendem a prisão após
49 condenação em segunda instância sem
50 esperar pelos recursos a instâncias
51 superiores? E que a grande maioria é contra
52 e, pelo que tudo indica, vai permanecer
53 contra o foro privilegiado?
(...)
54 Não é segredo que, no Brasil, antes da Lava
55 Jato, a Justiça procurava ser humana e
56 respeitosa com os condenados importantes,
57 para quem a presunção de inocência deveria
58 ser sagrada. O condenado sem nome
59 tornava-se, por outro lado, um número frio e
60 sem alma.
61 Um povo que foi capaz de metabolizar sem
62 dramas nem tumultos a prisão de Lula e dos
63 grandes industriais do país acusados de
64 corrupção talvez seja mais solidamente
65 democrático e socialmente mais saudável do
66 que uma minoria exaltada se esforça para
67 negar. Se for esse o caso, é uma injustiça
68 grave apresentar, no exterior, um Brasil à
69 beira de um descarrilamento democrático,
70 um golpe militar ou uma guerra civil, como vi
71 escrito em jornais sérios. É injusto porque é
72 falso. O que o mundo deve saber é que, no
73 Brasil, até os mais pobres estão mais
74 preocupados com a corrupção dos poderosos
75 do que com a própria economia, algo que só
76 seria concebível em países com velhas raízes
77 democráticas.
78 Às vezes, chego a pensar que este país pode
79 até dar uma reviravolta na teoria de Murphy,
80 segundo a qual “se algo pode dar errado,
81 dará”. Talvez seja capaz de interpretar essa
82 lei pessimista mudando-a para o lado
83 positivo: “se algo pode dar certo, dará”. E se
84 nas próximas eleições, apesar de todo o
85 pessimismo, acabar, por exemplo,
86 acontecendo o melhor?
Fonte:
https://brasil.elpais.com/brasil/2018/04/24/opinio
n/1524576905_686832.html. Acesso
em03/06/2018. Adaptação.
A respeito do pronome destacado na frase “Nem isso” (linha 37), é correto afirmar que
apresenta valor semântico de “acréscimo de um dado novo”.
retoma a última pergunta feita anteriormente.
refere-se às perguntas e respostas apresentadas anteriormente.
acrescenta um valor semântico de gradação.