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A caminho do brejo
A sociedade dá de ombros, vencida pela inércia
Cora Rónai
1 Um país não vai para o brejo de um momento
2 para o outro — como se viesse andando na
3 estradinha, qual vaca, cruzasse uma cancela
4 ncela e, de repente, saísse do barro firme e
5 embrenhasse pela lama. Um país vai para o
6 brejo aos poucos, construindo a sua desgraça
7 ponto por ponto, um tanto de corrupção aqui,
8 um tanto de demagogia ali, safadeza e
9 impunidade de mãos dadas. Há sinais
10 constantes de perigo, há abundantes
11 evidências de crime por toda a parte, mas a
12 sociedade dá de ombros, vencida pela inércia
13 e pela audácia dos canalhas.
(...)
14 Um país vai para o brejo quando políticos
15 lutam por cargos em secretarias e ministérios
16 não porque tenham qualquer relação com a
17 área, mas porque secretarias e ministérios
18 têm verbas — e isso é noticiado como fato
19 corriqueiro da vida pública.
20 Um país vai para o brejo quando
21 representantes do povo deixam de ser povo
22 assim que são eleitos, quando se criam castas
23 intocáveis no serviço público, quando esses
24 brâmanes acreditam que não precisam
25 prestar contas a ninguém — e isso é aceito
26 como normal por todo mundo.
27 Um país vai para o brejo quando as suas
28 escolas e os seus hospitais públicos são
29 igualmente ruins, e quando os seus cidadãos
30 perdem a segurança para andar nas ruas,
31 seja por medo de bandido, seja por medo de
32 polícia.
33 Um país vai para o brejo quando não protege
34 os seus cidadãos, não paga aos seus
35 servidores, esfola quem tem contracheque e
36 dá isenção fiscal a quem não precisa.
37 Um país vai para o brejo quando os seus
38 poderosos têm direito a foro privilegiado.
39 Um país vai para o brejo quando se divide, e
40 quando os seus habitantes passam a se odiar
41 uns aos outros; um país vai para o brejo
42 quando despenca nos índices de educação,
43 mas a sua população nem repara porque está
44 muito ocupada se ofendendo mutuamente nas
45 redes sociais.
46 O Brasil caminha firme em direção ao brejo há
47 muitas e muitas luas, mas um passo decisivo
48 nessa direção foi dado quando Juscelino
49 construiu Brasília, aquela farra para as
50 empreiteiras, e quando parlamentares e
51 funcionários públicos em geral ganharam
52 privilégios inéditos em troca do “sacrifício” da
53 mudança para lá.
54 Brasília criou um fosso entre a nomenclatura
55 e os cidadãos comuns. A elite mora com a
56 elite, convive com a elite e janta com a elite,
57 sem vista para o Brasil. Os tempos épicos do
58 faroeste acabaram há décadas, mas há os
59 privilégios que foram mantidos, ampliados e
60 replicados pelos estados. De todas as
61 heranças malditas que nos deixaram, essa é a
62 pior de todas.
(...)
Fonte: https://oglobo.globo.com/cultura/a-
caminho-do-brejo-20606929#ixzz5H47dDVl5.
Acesso em 31/05/2018. Adaptado.
Assinale a opção em que há a correta identificação do pronome destacado no exemplo e o seu referente.
“... e isso é noticiado como fato corriqueiro da vida pública.” (linhas 18-19) — refere-se a “porque tenham qualquer relação com a área”. (linhas 16-17)
“... e isso é aceito como normal por todo mundo.” (linhas 25-26) — refere-se a “Um país vai para o brejo”. (linha 20)
“...e os seus hospitais públicos são igualmente ruins...” (linhas 28-29) — refere-se a “escolas”. (linha 28)
“De todas as heranças malditas que nos deixaram... (linhas 60-61) — refere-se à autora e aos brasileiros de maneira geral.