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Leia o texto a seguir e responda às questões de 3 a 8.
A culpa é sempre da vítima
1 Não me canso de repetir o que já publiquei sabe Deus quantas vezes neste espaço: “A leitura do mundo
2 precede a leitura da palavra”. Como se sabe, o pensamento não é meu (quem me dera!); é de Paulo Freire.
3 Quem pensa mal lê mal. E lê mal tudo: o mundo, a palavra, os fatos, a realidade, os textos, as canções, os
4 filmes etc., etc., etc. Funestas, essas más leituras infernizam diretamente a vida de todos nós.
5 O que me leva a essas reflexões é o resultado de uma pesquisa encomendada pelo Fórum Brasileiro de
6 Segurança Pública sobre violência sexual. Realizado pelo Datafolha e publicado nesta quarta (21), o estudo
7 revela dados estarrecedores. Um deles: 37% dos entrevistados dizem que “as mulheres que se dão ao
8 respeito não são estupradas”. É mole?
9 Para mim, esses resultados são absolutamente coerentes com o pensamento do brasileiro médio, desses
10 que todos conhecemos (temos pelo menos um deles no ambiente de trabalho, na família etc.).
11 Para essa gente, a culpa é sempre da vítima. Sabe o caso do cidadão que vai à delegacia para registrar o
12 furto de um veículo e ouve o delegado perguntar algo como “O senhor queria deixar o carro lá e encontrá-lo
13 na volta?”. Pronto! O delegado acabou de dizer que sabe que “lá” a barra é pesada, então...
14 Então o escambau! Se ele sabe que “lá” a barra é pesada, por que não faz o que deveria fazer? Mas é mais
15 fácil pôr a culpa na vítima.
16 E o pobre coitado que tem o azar de morar perto do largo da Batata, em São Paulo, quer exercer o seu
17 sagrado direito de ir e vir, encontra meia dúzia de boçais quebrando tudo e acaba sendo obrigado a engolir
18 gás de pimenta, bomba de efeito moral etc., que a preparadíssima PM paulista adora lançar aos quatro
19 ventos para resolver toda e qualquer situação? O que diz o brasileiro médio? Uma pérola: “Quem mandou
20 passar por lá? Ficasse longe”.
21 A sucessão de argumentos inteligentes está por toda parte e muitas vezes é fomentada por quem deveria
22 refletir antes de destilar bobagens. Quer um exemplo? Tiremo-lo do futebol: um árbitro fraco é escalado para
23 um jogo decisivo. O pobre diabo começa a inverter faltas, é omisso em relação à disciplina etc., e tudo isso
24 “irrita” os jogadores e a torcida, a qual joga objetos no gramado e dá outras aulas de civilidade.
25 O que dizem nessa hora muitos dos nossos “jornalistas” esportivos? “Eu não disse?! É um árbitro fraco, que
26 erra muito, o que incita a violência”. Quer dizer que a culpa dos atos violentos dos jogadores e torcedores é
27 do árbitro? Haja atraso!
28 Quer outro caso emblemático? Lá vai: “Vou votar em Fulano porque ele é rico, por isso não precisa roubar”.
29 Que se faz com uma criatura dessas? Há solução para isso?
30 Por falar em candidato rico, um deles deu uma resposta genial a uma pergunta sobre a possível invasão de
31 um terreno público: “Tenho 16 mil metros quadrados lá; não preciso desses 400”. Quer dizer que, se não
32 tivesse os 16 mil, poderia lançar mão desse recurso? Ai, ai, ai...
33 O que me espanta nisso tudo é ver que muita gente não liga lé com lé, cré com cré, isto é, não entende por
34 que os resultados das avaliações dos nossos estudantes e do nosso ensino são as que são e por que não
35 avançamos um milímetro em questões essenciais, por que somos os últimos dos BRICS em tudo etc., etc.,
36 etc. Pensar dói. Dói muito. Não pensar ou pensar mal, então... É isso.
NETO, Pasquale Cipro. A culpa é sempre da vítima. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/colunas/pasquale/2016/09/1815633-a-culpa-e-sempre-da-vitima.shtml>. Acesso em: 22 set. 2016.
Considerando-se os recursos linguísticos empregados no texto, é CORRETO afirmar:
A expressão “um deles” (linha 7) refere-se a estudo.
A expressão “esses resultados” (linha 9) refere-se à pesquisa.
O termo “que” (linha 18) refere-se à bomba de efeito moral.
O termo “lá” (linha 20) refere-se a largo da Batata.
A expressão “desse recurso” (linha 32) refere-se a 16 mil metros quadrados.