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INSTRUÇÃO: Leia o Texto 01, com atenção, e responda às questões 11 a 20.
TEXTO 01
VIDA A DOIS
1 ____ Relacionar-se é como estacionar um carro sedã numa vaga bastante apertada. É preciso manobrar com
precisão o automóvel, entender onde se está a cada momento, olhar para a frente e pelo retrovisor quase ao mesmo
tempo, considerar os pontos cegos. Só que, às vezes, você é o motorista e, às vezes, o flanelinha, cuja função é dar
alguns toques ao condutor, com a vantagem de quem vê (o outro) de fora. Do lado de dentro do carro (ou de si), o
5 motorista nunca sabe ao certo quando avança muito ou recua demais. Tem de contar, então, com a orientação
externa para evitar colisões. Viver a dois é se dedicar a essa alternância numa baliza que nunca termina
completamente. Ora parece que coube direitinho, ora é preciso recomeçar. [...] A visão romântica do amor sugere
que as pessoas ingressam em relacionamentos problemáticos por engano, enquanto uma leitura psicológica do
assunto entende que essas escolhas expressam necessidades inconscientes – o modo precário com que se aprende
10 a amar e a ser amado na infância. Por isso, tem cônjuge que depende o tempo todo da aprovação do outro, como
um filho inseguro, e parceiros que se provocam até que um deles sucumba em uma explosão de raiva, como uma
criança birrenta. Terminar um relacionamento construído nessas condições talvez não seja a melhor resposta,
porque o problema seguiria mal resolvido, disponível para reprise com o próximo parceiro. Em vez disso, o filósofo
suíco Alain de Botton sugere uma pausa para a reflexão, uma pergunta crucial: o que uma pessoa madura faria
15 agora? Às vezes, é o que basta para recobrar o cuidado com o outro e o respeito consigo mesmo, cada um invocar a
melhor versão de si. Os dois não são mais crianças indefesas, vitimadas pelas falhas dos pais. Podem agora pensar
e agir como adultos, desde que se lembrem disso. Sem essa consciência, os parceiros podem se tirar do sério até
pelo que parece banal, como um impasse na escolha de um filme ou uma camiseta esquecida fora do lugar. A
comunicação fica truncada, reduzida a cobranças, acusações e silêncios. Na verdade, se algo incomoda, é
20 importante. [...] É por isso que terapia ajuda tanto, individualmente ou em dupla. [...]
Mas como ser, ao mesmo tempo, um motorista mais atento e um flanelinha de fato prestativo quando a
terapia está fora de questão para o casal num determinado momento? Insights da psicologia, da filosofia e até da
neurociência podem ser de grande ajuda. Porque compreensão é sempre um belo começo – seja de si, do outro, do
ideal do amor romântico ou dos relacionamentos conjugais como realmente são. Os mecanismos orgânicos do amor
25 estão atrelados a um relacionamento íntimo vigente em nós, nunca mencionado em contos de fadas e comédias
românticas – o casamento entre a mente e o cérebro. A sensação de aperto no coração, o disparar, tudo isso é real,
mas desencadeado por neurotransmissões e descargas hormonais. Tudo começa na cabeça – o coração é apenas o
mensageiro, só dá o recado. É preciso separar a base biológica da qual somos feitos do que é cultural e pode ser
desconstruído. O ideal do amor romântico só faz bem quando inspira a delicadeza com o outro, a valorização da
30 união. Quando se torna um catalisador de expectativas extravagantes e fantasiosas, só favorece a decepção e o
ressentimento, como a fraude do “felizes para sempre”. A verdade é que relacionamentos têm fases porque
cumprem ciclos psíquicos já claramente identificados pela ciência: a paixão, o amor romantizado e o amor
companheiro, nessa ordem. [...]
Uma pessoa desfruta, em média, de aproximadamente 86 bilhões de neurônios, capazes de realizar um
35 número insondável de sinapses. É essa extraordinária engenharia em você que se apaixona e ama. A fase da
paixão, mais motivada, ansiosa e sexualizada, costuma durar de seis meses a dois anos e é exaustiva para a mente.
[...] Na sequência, vem o amor romantizado, em que a libido ainda é um componente importante e presente, mas na
qual a relação tende a ser vivida com mais serenidade. Na terceira fase, a do companheirismo, o desejo perde
espaço, ao mesmo tempo em que aumentam o vínculo e o compromisso. [...] O problema é que a cultura não
40 compactua com a biologia e muitas pessoas se frustram com a dissipação do furor inicial. Além disso, a progressão
das fases não ocorre em sincronia – um dos cônjuges pode mudar de estágio antes do outro, favorecendo o
desencontro.
Com o aumento da expectativa de vida, a fase do companheirismo pode se prolongar por décadas – para os
que chegam a conhecê-las, claro. Ao mesmo tempo, os parceiros são hoje cada vez mais expostos à felicidade
45 editada de outros casais, compartilhada à exaustão nas redes sociais. Como se sabe, no entanto, é sempre fora do
enquadramento que os relacionamentos enfrentam seus maiores desafios. O trunfo dos casais contemporâneos é a
possibilidade de poder compreender toda essa complexidade – e conversar abertamente sobre ela. Saber de tudo
isso, conhecer e também aceitar os processos biológicos e sociais atrelados ao amor pode ser de grande ajuda para
qualquer relacionamento. [...] Por isso, a melhor estratégia talvez seja manter uma perspectiva racional diante do
50 tempo – é possível que acabe eventualmente; se calhar de uma conexão verdadeira persistir até que a morte os
separe, que seja uma grata surpresa. [...]
A diminuição gradual da libido, queixa frequente em relacionamentos longevos, pode ser contida com uma
combinação de estratégias. Uma delas é a prática regular de atividade física, que estimula a produção da
testosterona no organismo, hormônio diretamente relacionado ao tesão. Uma dieta balanceada que inclua alimentos
55 afrodisíacos, como o cacau e a pimenta, é outro recurso a considerar – pode aumentar tanto o desejo quanto o
prazer sexual. Desfrutar de bons momentos juntos também funciona: o prazer compartilhado ao ver um filme, sair
para jantar ou fazer uma viagem também estimula o interesse mútuo, renovando em cada parceiro memórias felizes
relacionadas à união. Outro elemento crucial é a presença de contato físico. Muitos casais já fazem uso desse
recurso inconscientemente, com o chamado “sexo de reconciliação”, intenso o bastante para restabelecer a conexão
60 em momentos de fragilidade. Mas há outras abordagens. Pesquisas mostram que casais que se comunicam bem –
que se expressam e se ouvem – também tendem a se manter juntos por mais tempo. O mesmo vale para aqueles
que se valorizam: a admiração mútua, demonstrada pela troca regular de elogios sinceros, fortalece o vínculo. [...]
Se hoje o casamento não é mais uma condenação perpétua, se agora as pessoas têm liberdade para mudar
de ideia e seguir em frente – o que, em muitos casos, é louvável –, também há o perigo denunciado pelo sociólogo
65 polonês Zygmund Bauman de nunca se estabelecerem conexões verdadeiras e vagar em busca de uma satisfação
que jamais se concretiza. [...] Por isso, quem ama precisa sempre se manter atento. Nada está dado. Quando a
vaga parece segura, sob a sombra oportuna de uma árvore exuberante numa tarde de sol, o casal pode reclinar os
bancos para se permitir um descanso temporário, lado a lado. Que seja restaurador... Porque, de tempos em
tempos, será preciso manobrar outra vez.
QUINTANILHA, Leandro. Vida a dois. Disponível em:<http://vidasimples.uol.com.br/noticias/capa/vida-a-dois.phtml#.WZbfuj6GMdU> . Acesso em: 18 ago. 2017. Adaptado.
O texto permite-nos inferir uma metáfora que o sintetiza. Assinale a alternativa que melhor exprime essa metáfora.
O relacionamento estável é como um estacionamento difícil.
O relacionamento estável é um estacionamento difícil.
O relacionamento estável é uma manobra em uma vaga qualquer.
O relacionamento estável é constituído de ciclos psíquicos.