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O termo “entretanto” (linha 3) estabelece, entre as partes...

Leia o texto a seguir para responder às questões de 5 a 9.


Filosofia Africana e Saberes Ancestrais Femininos: útero do mundo


1 _____ Um dia, quando ainda morava no sertão cearense, a menina que me habita acreditou que a

2 filosofia fosse possibilidade de construir pensamentos e práxis de libertação, onde a pluralidade de

3 saberes, de culturas, de povos fosse fonte para suas tessituras. Entretanto, ao chegar à Universidade,

4 encontrei uma filosofia sem poéticas de libertação, patriarcal e racista! No

5 pensamento universal apresentado nas histórias da filosofia, nas metafísicas, éticas, teorias do

6 conhecimento, dentre outras “disciplinas”, não se viam / conheciam filosofias negras, femininas… ou seja,

7 o pensamento ocidental se instituía como universal, colocando os povos africanos e seus descendentes à

8 margem do pensamento. Dizia-se que só era (é) possível filosofar em alemão! E esse alemão é branco,

9 masculino e heteronormativo.

10 _____ O desencantamento do mundo provocado pela filosofia que se aprende nas universidades me

11 levou a um questionamento que mudou todo o meu percurso e acabou por me trazer, finalmente, o

12 encantamento do mundo… Perguntei-me: como será a filosofia em África? Como filosofar em “pretuguês”,

13 como nos ensina a pensadora Lélia Gonzalez?

14 _____ A filosofia africana traz encantamento. É vital tornar visível o pensamento africano,

15 afrorreferenciado. Compreendo que a(s) filosofia(s) africana(s), africano-brasileira, afrorreferenciada,

16 implica(m) a busca do rompimento com a colonialidade, que não acabou com o fim das diversas

17 colonizações de países europeus no continente africano e no Brasil. Implica a valorização e re-

18 conhecimento de nossos saberes, de 18 nossas culturas, de nossas filosofias, de nossos corpos. Re-

19 conhecimento de nossas escrevivências. Pois, como nos ensina Conceição Evaristo, nada nasce imune

20 ao que somos, às nossas vivências e experiências. Negar nossas escrevivências é seguir negando

21 nossas filosofias, nossos saberes produzidos por corpos vivos, produtores de conhecimentos.

22 _____ Quero seguir o texto dialogando com os saberes ancestrais femininos; dialogando com a filosofia

23 africana desde e com vozes de mulheres e do feminino que habita em todas as pessoas. Esses saberes

24 se apresentam como fonte de potencialização de nossas existências, de pertencimento, de ancestralidade

25 e de encantamento.

26 _____ Partindo dessa perspectiva, cada pessoa é constituída pelas energias femininas e masculinas. É

27 importante trabalharmos para mantê-las em harmonia. Entretanto, é a energia feminina que contém a

28 cabaça da existência, cabaça que gera, cria, co-cria. O feminino é o útero do mundo, potência da vida

29 comunitária, coletiva, pautada pela justiça e pelo bem viver. Carregamos toda uma ancestralidade que nos

30 permite ser, existir, resistir, re-existir. Assim, somos ancestrais; nossos corpos são ancestrais e, portanto,

31 sagrados. Desse modo, nossa existência só é possível em contato com a natureza. Sem ela não somos. A

32 ancestralidade é a natureza. Os saberes ancestrais femininos nos ensinam que devemos voltar à terra,

33 pois ela é o centro da vida. Voltarmos ao centro da terra é ouvirmos nossa ancestralidade e nos

34 encantarmos com essa escuta, uma escuta sensível que tece nosso ser-tão. É a escuta de nosso útero.

35 _____ A escuta sensível se inicia com a escuta de nossa intimidade, portanto, de nossa ancestralidade,

36 de nossos corações. Essa escuta privilegia o corpo como produtor de sentidos, de conhecimentos, corpo

37 ancestral. Assim re-conhecemos suas singularidades diante do coletivo que permite nossa existência.

38 Nosso corpo é suporte de nossas vivências, experiências e sabedorias, de nossos sentidos; ele cria

39 textualidades, reinventando a vida, potencializando o encantamento.

40 _____ Os saberes ancestrais femininos são tecidos pelo conhecimento de nossa natureza, da natureza

41 que há em nós, conhecimento de nossos ciclos, da nossa potência criativa, do nosso poder de permitir e

42 potencializar a vida. Os saberes ancestrais femininos são a escuta da água que há em nosso útero, pois é

43 escuta de nossa ancestralidade.

44 _____ As filosofias da ancestralidade e do encantamento que tecem as filosofias africanas são bordadas

45 pelo pertencimento. Pertencimento é construção, formação e escuta uterina e, assim, descoberta do que

46 está inscrito em nosso íntimo; é ouvir o ritmo de nossos corações. É entender nosso eu interior e

47 compreender o mundo, a vida desde esse pertencimento que é coletivo, enraizado, que é ser-tão.

48 Definimos nossa existência pelo comunitarismo e pela justiça social, ou seja, pela ancestralidade e pelo

49 encantamento.

50 _____ Os saberes ancestrais femininos propõem que nos autorizemos a contar nossas histórias, a

51 construí-las, reconstruí-las, contar sobre nossos valores, nossos saberes, nossas lógicas de

52 pertencimento, de sociedade, de partilha, contar sobre nós mesmas, desde

53 nossas escrevivências. Filosofar anunciando, resistindo, re-existindo, em um desafio cotidiano de

54 descolonização, desconstruções, transformAções e encantamento! Aprender a ouvir / sentir / conhecer /

55 filosofar de corpo inteiro, desde o chão que pisamos e que nos fortalece, é enraizar-se. O enraizamento é

56 um movimento de expansão, fixação, movimento e profundidade, absorção da água para manter a energia

57 vital… não há vida sem a água. O feminino é o útero, a cabaça, a água que permite a existência.


MACHADO, Adilvênia Freire. Filosofia Africana e Saberes Ancestrais Femininos: útero do mundo. Disponível em: https://diplomatique.org.br/filosofiaafricana-e-saberes-ancestrais-femininos-utero-do-mundo/

Acesso em: 06 nov. 2020. (Adaptado).

O termo “entretanto” (linha 3) estabelece, entre as partes do texto que liga, uma relação semântica


A

adversativa


B

concessiva


C

conclusiva


D

explicativa


E

aditiva