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A oração "[...] para que tenhamos mais familiaridade com...

Leia o texto abaixo e responda às questões de 1 a 10.

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A cobertura das tragédias e a consequente indignação seletiva


01----------Nos últimos dias, diversas tragédias assolaram o mundo. Aqueles que, como nós, não vivenciaram os

02--acontecimentos diretamente, tomaram conhecimento deles a partir do recorte e da construção midiática dos

03--fatos: dos atentados em Paris, passando pelo crime ambiental em Minas Gerais e a chacina em Fortaleza.

04----------A história se repete: um desastre em algum lugar do mundo gera manifestações de solidariedade,

05--hashtags e avatares nas redes sociais. De imediato, um grupo reage lembrando outros casos de atentados,

06--mortos e desabrigados em lugares em guerra, famílias vivendo em situações insalubres.

07----------Casos, às vezes, acontecidos em dias muito próximos. "Indignação seletiva!" — acusam de um lado.

08--"Minha indignação não é seletiva!" — respondem de outro. ―Somos todos (e todas) Paris, Síria, Mariana,

09--Fortaleza". Não, não somos. Somos diversos, com diversas experiências e bagagens afetivas e culturais, que

10--influenciam na forma como reagimos a cada tragédia. Parte significativa dessa bagagem, do conhecimento que

11--temos dos lugares, povos e tragédias vem de um lugar comum: os grandes meios de comunicação.

12----------Não se trata, aqui, de pesar qual fato é mais doloroso ou digno de cobertura ou solidariedade. Todas as

13--vidas ceifadas, assim como toda destruição e violência, deve nos indignar e atravessar profundamente, inclusive

14--aquelas que ganham, quando muito, um mínimo espaço nas páginas policiais. Mas, para compreender como a

15--seleção dos acontecimentos, a abordagem e a comoção gerada por eles são feitas, precisamos desnudar o

16--modus operandi dos meios de comunicação. E perceber que não é difícil concluir que a violência já começa na

17--invisibilidade imposta aos que não são considerados relevantes.

18----------A decisão do que é e do que não é notícia, além de que notícia é mais importante que outra, é baseada

19--em diversos critérios, sistematizados por diferentes autores, ensinados nas escolas de jornalismo e incorporados ao

20--cotidiano das redações. Apenas para usar como exemplo o elenco mais conciso deles, dá-se mais relevância

21--aos acontecimentos de acordo com: novidade, proximidade geográfica, proeminência e negativismo.

22----------Ou seja, o que acontece hoje é uma notícia mais importante do que o que se passou anteontem; um jornal

23--do Ceará colocará em destaque notícias da periferia de Fortaleza, não de Paris; porém, caso morra um camelô

24--na feira da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, ou a apresentadora Angélica sofra um acidente, O Globo dará a

25--manchete para ela; uma má notícia ganha mais destaque que um acontecimento positivo.

26----------Esses critérios obviamente não são naturais. Foram pensados a partir do que toca mais o público, sim,

27--mas também estão fortemente ligados a valores econômicos e culturais. A vida de um parisiense vale mais do

28--que a de um sírio? Pessoalmente podemos achar que não — e defendemos que não. Para a imprensa brasileira

29--tradicional, no entanto, a resposta é sim.

30----------Ao nos apresentar o mundo que nem sempre conhecemos de perto — ou, mesmo quando o fazemos,

31--estamos já atravessados por todas as informações e imagens que nos chegaram de forma midiatizada —, a

32--mídia também colabora para que tenhamos mais familiaridade com certos povos e lugares. Cenários que já

33--vimos tanto no cinema e na televisão.

34----------Na geografia dos afetos, o Rio de Janeiro é muito mais próximo de Paris do que de Fortaleza. Além disso,

35--o tipo de tragédia que assolou Fortaleza na última semana, com a chacina de doze pessoas — em especial

36--jovens negros —, é a tragédia cotidiana nas periferias, morros e favelas. O critério da novidade aí também se

37--esvazia.

38----------E o que é uma tragédia passa a ser banal, sem merecer qualquer destaque. Até mesmo o lugar social dos

39--envolvidos é usado para justificar ou não suas mortes. Ter ou não passagem pela polícia tornou-se, assim, uma

40--das primeiras perguntas feitas e reportadas na apuração dos assassinatos. Afinal, a tão propagada narrativa

41--policialesca tem fixado na sociedade que ―bandido bom é bandido morto‖. Foi assim em Cabula, em Salvador, e

42--tem sido assim agora, no Ceará.

43----------Mas a própria lógica da noticiabilidade é subvertida quando segui-la prejudica interesses políticos e

44--econômicos dos veículos de comunicação. O caso do rompimento da barragem do Rio Doce, obra da Samarco,

45--controlada pela Vale, em Mariana/MG, é emblemático. Novidade, proximidade, proeminência, negatividade. São

46--dezenas de mortos e desabrigados, cidadãs e cidadãos sem água potável e um prejuízo humano e ambiental

47--cujas consequências afetarão por anos uma extensão territorial significativa de nosso país.

48----------O crime, no entanto, que tem responsáveis muito claros, vem sendo reportado como desastre ambiental.

49--Tampouco se discute a fundo a questão das privatizações e da responsabilidade do poder público no

50--acompanhamento das ações das mineradoras.

51----------A própria presidenta da República só foi à região, sobrevoando a área de helicóptero, uma semana depois

52--do rompimento da barragem. O fato de nossa autoridade política não ter dado a devida importância ao

53--acontecimento em Minas sem dúvida contribui para o não-destaque nas pautas dos telejornais e veículos

54--impressos. Mas chamar a atenção de autoridades e cobrar a responsabilização dos envolvidos também é papel

55--da imprensa, por meio da definição do que ganha e do que não ganha as manchetes.

56----------[...]

57----------Por isso, em vez de apontarmos o dedo uns aos outros, principalmente nas redes sociais, acusando-nos

58--mutuamente de indignação seletiva, cabe entender como é construída tal seleção no nosso próprio imaginário.

59--Qual o papel da mídia nesse processo, mesmo entre quem busca coberturas e veículos alternativos ao

60--mainstream.

61-- Quais as consequências da grande concentração num setor que deveria ser regido pela pluralidade e pela

62--diversidade de ideias, como preza qualquer boa democracia. E a quem serve a fragmentação da nossa

63--indignação, que tem como pano de fundo, por mais clichê que seja a afirmação, um sistema mundial de

64--opressões que pune e invisibiliza "minorias" sociais do Ocidente ao Oriente, nas grandes cidades, periferias,

65--morros e favelas; no campo e nas reservas-indígenas e ambientais; na esquina da nossa casa.

.....

(MOURÃO, Mônica; MARTINS, Helena. Mariana, Síria, Fortaleza, Paris. A cobertura das tragédias e a consequente indignação seletiva, Intervozes, Carta Capital, 16 nov. 2015. Com alterações e supressões. Disponível em: <http://www.cartacapital.com.br/blogs/intervozes/a-cobertura-das-tragedias-e-a-consequente-indignacao-seletiva-4432.html>. Acesso em: 04 dez. 2015.)

A oração "[...] para que tenhamos mais familiaridade com certos povos e lugares" (linha 32) exerce a função sintática, na frase em que ocorre, de:


A

Oração subordinada substantiva subjetiva


B

Oração subordinada substantiva objetiva direta


C

Oração subordinada substantiva objetiva indireta


D

Oração subordinada substantiva completiva nominal


E

Oração subordinada substantiva predicativa