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19 de julho de 1955 –
[...] Quando as mulheres feras invade o meu barraco, os meus filhos lhes joga pedras. Elas diz:
– Que crianças mal iducadas!
Eu digo:
– Os meus filhos estão defendendo-me. Vou escrever um livro referente a favela. Hei de citar tudo que aqui se passa. E tudo que vocês me fazem. Eu quero escrever o livro, e vocês com estas cenas desagradaveis me fornece os argumentos.
21 de julho –
...Estou residindo na favela. Mas se Deus me ajudar hei de mudar daqui. Espero que os políticos estingue as favelas. [...].
22 de julho
Que suplicio catar papel atualmente! Tenho que levar a minha filha Vera Eunice. Eu ponho o saco
na cabeça e levo-a nos braços. Tem hora que revolto-me. Depois domino-me. Ela não tem culpa de estar no mundo.
13 de maio de 1958 –
É um dia simpatico para mim.
É o dia da Abolição. Dia que comemoramos a libertação dos escravos.
A Vera começou pedir comida. E eu não tinha.
Fui pedir um pouco de banha a Dona Alice. Ela logo deu-me a banha e arroz. Era 9 horas da noite quando comemos.
E assim no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravatura atual– a fome! (Quarto de despejo – diário de uma favelada. São Paulo: Francisco Alves, 1960. ______._____. São Paulo: Ática, 2001)
Ao revelar que escreverá um livro, a autora do diário:
Impõe-se no ambiente hostil a quem tem maior formação cultural e usa sua escrita para colocar-se num patamar acima dos demais, fazendo com que todos voltem-se contra seus filhos.
Apresenta-se como uma habitante solidária do lugar, que usa a escrita para relatar os pontos positivos da convivência íntima numa favela, desejando quebrar prejulgamentos.
Provoca inveja nas mulheres que descobrem que ela as descrevia como ‘feras’, então elas resolvem invadir seu barraco e engendrar uma vingança.
Coloca-se na posição de denunciante ao mesmo tempo em que se projeta como elemento diferenciador naquele ambiente.
Demonstra desprezo pelas mulheres que invadem seu barraco e naquele momento resolve narrar o ocorrido.