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Insulto, logo existo
A crítica e o contraditório são fundamentais. Grande parte do avanço em
02liberdades individuais e nas ciências nasceu do questionamento de paradigmas.
03Sociedades abertas crescem mais do que sociedades fechadas. A base da
04democracia é a liberdade de expressão. Sem oposição, não existe liberdade.
Uma crítica bem fundamentada destaca dados que um autor não percebeu. Um
06juízo ponderado é excelente. Mais de uma vez percebi que um olhar externo via
07melhor do que eu. Inexiste ser humano que não possa ser alvo de questionamento.
08Horácio garantia, com certa indignação, que até o hábil Homero poderia cochilar. A
09crítica pode nos despertar.
Como saber se a avaliação é boa? Primeiro: ela mira no aperfeiçoamento do
11conhecimento e não em um ataque pessoal. A boa crítica indica aperfeiçoamento.
12Notamos, no arguidor sincero, uma diminuição da passionalidade. Refulgem
13argumentos e dados. Mínguam questões subjetivas. ____ mais substantivos e menos
14adjetivos. Não digo o que eu faria ou o que eu sou. Indico apenas como algo pode
15ser melhor e a partir de quais critérios. Que argumentos estão bem fundamentados e
16quais poderiam ser revistos. Objetividade é um campo complexo em filosofia, mas,
17certamente, alguém babando e adjetivando foge um pouco do perfil objetivo.
Duas coisas ajudam na empreitada. A primeira é conhecimento. Há um mínimo
19de formação. Não me refiro a títulos, mas à energia despendida em absorver
20conceitos. Nada posso dizer sobre aquilo do qual nada sei. Pouco posso dizer sobre
21o que ______________ domino. A segunda é a busca da impessoalidade. Critico não
22por causa da minha dor, da minha inveja, do meu espelho. Examino a obra em si, não
23a obra que eu gostaria de ter feito ou a que me incomoda pelo simples sucesso da
24sua existência. Critico o defeito e não a luz.
Cheguei a essas conclusões por já ter errado. Arrependo-me de críticas
26passionais. Tomei consciência de que dois ou três temas mexem tanto comigo, que
27a objetividade tende a diminuir. Questões ligadas ao racismo, à violência contra
28mulheres e à educação implicam uma carga emotiva forte para mim. Hoje, quando
29vejo que o debate roça nisso, submeto-me a redobrada atenção para evitar fazer
30aquilo que estou reclamando em outros.
Reconhecida minha imperfeição, reafirmo: assusta-me a virulência da internet.
32____ pessoas que querem fazer sucesso a qualquer preço e cimentam a estrada com
33palavrões. Acreditam que agressões com palavras vulgares e apelidos sejam um
34grande impacto. Estão corretos: causam impacto, mas vulgaridade é simples
35concussão.
Suponho que alguns apresentem sintomas ligados à chamada síndrome de
37Tourette. Georges Gilles de la Tourette (1857-1904) descreveu pacientes que tinham
38compulsão de enunciarem palavrões [...]. Além de uma síndrome generalizada de
39Tourette, noto a vontade de classificar mais do que entender. Definido se o autor é X
40ou Y, encerra-se a discussão. Basta dizer que ele é, por exemplo, conservador ou
41socialista. Nada mais preciso pensar da obra.
É preciso reforçar que o talento e a criatividade ___ pouca exclusividade política
43ou biográfica. Portinari e Jorge Amado eram gênios na pintura e na escrita. Também
44foram devotados comunistas. Jorge Luis Borges mudou a maneira de pensar a
45literatura mundial. Era racista e achava a ditadura de Francisco Franco muito boa.
46Oscar Niemeyer mudou a noção de arquitetura do século 20. Era adepto do
47marxismo. Shakespeare, do ponto de vista político, era bastante conservador e
48desconfiava da participação popular. Descartes e Pascal eram religiosos; Bertrand
49Russel e Diderot, ateus. Picasso e Hemingway eram sedutores quase agressivos de
50mulheres. Nelson Rodrigues não era, exatamente, um feminista. O pintor Francis
51Bacon, o músico Schubert e o economista J. Keynes tinham vida ou desejo
52homoeróticos. O que eu quero dizer: no momento em que eu apenas uso o rótulo,
53perco a chance de ver engenho e arte. Fixar-se no estereótipo parece ser um recurso
54de certa estreiteza analítica. Tanto a maestria pode estar presente num indivíduo
55detestável como a mediocridade pode aflorar no mais engajado lutador dos direitos
56dos filhotes de foca.
Respondo raramente a críticos agressivos. Basicamente por falta de tempo e
58também por acreditar ser um direito de todos a manifestação com liberdade, dentro
59dos limites da lei. Internet funciona como terapia para muitos. Sempre recomendei
60que as pessoas fossem comedidas não por humildade, porém por vaidade, já que
61atacando alguém eu falo tanto de mim e dos meus medos que a prudência impõe
62certo silêncio obsequioso. Poucas coisas desnudam tanto minha alma como o ataque.
63Podemos sempre evitar o texto de quem discordamos. O impossível é evitar a nós
64mesmos.
Eis fevereiro entre nós. Hoje, chego ao meu verão de número 54. Nunca havia
66percebido a vida tão fascinante como agora. Melhorei muito _______tive bons críticos
67ao longo dos anos. Ajudaram-me a superar mazelas e lacunas. Agradeço ____ eles.
68Desejo paz aos outros julgadores. Estou com pouco tempo para odiar.
Leandro Karnal
Disponível em: . Acesso em: 21 nov. 2018. (Adaptado)
De acordo com as figuras de linguagem, as palavras sublinhadas na frase “Sociedades abertas crescem mais do que sociedades fechadas”, linha 03, representam a:
Hipérbole.
Silepse
Anáfora.
Antítese.