Instrução: As questões de números 01 a 15 referem-se ao texto abaixo. Os destaques ao longo do texto estão citados nas questões.
Escutatória
Por Rubem Alves
- Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo
- mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de
- escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.
- Faz muito tempo, nunca me esqueci. Eu ia de ônibus. Atrás duas mulheres conversavam.
- Uma delas contava para a amiga os seus sofrimentos. Uma delas contava do marido
- hospitalizado, dos médicos, dos exames complicados, das injeções na veia – a enfermeira nunca
- acertava – dos vômitos e das urinas. Era um relato comovente de dor. Até que o relato chegou ao
- fim, esperando, evidentemente, o aplauso, admiração, uma palavra de acolhimento na alma da
- outra que, supostamente, ouvia. Contudo, o que a sofredora ouviu foi o seguinte: “Mas isso não é
- nada…” A segunda iniciou, então, uma história de sofrimentos incomparavelmente mais terríveis e
- dignos de uma ópera que os sofrimentos da primeira.
- Daí a dificuldade: a gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite
- melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele
- diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a
- gente tem a dizer, que é muito melhor. No fundo somos todos iguais às duas mulheres do ônibus.
- Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil da nossa arrogância e
- vaidade: no fundo, somos os mais bonitos…
- .......... grupos religiosos cuja liturgia consiste de silêncio. .......... alguns anos passei uma
- semana num mosteiro na Suíça, Grand Champs. Eu e algumas outras pessoas ali estávamos para,
- juntos, escrever um livro. Era uma antiga fazenda. Velhas construções, não me esqueço da água
- no chafariz onde as pombas vinham beber. ......... uma disciplina de silêncio, não total, mas de
- uma fala mínima. O que me deu enorme prazer às refeições. Não tinha a obrigação de manter
- uma conversa com meus vizinhos de mesa. Podia comer pensando na comida. Também para
- comer é preciso não ter filosofia. Não ter obrigação de falar é uma felicidade. Mas logo fui
- informado que parte da disciplina do mosteiro era participar da liturgia três vezes por dia: ___ 7
- da manhã, ___ meio dia e ___ 6 da tarde. Estremeci de medo. Mas obedeci. O lugar sagrado era
- um velho celeiro, todo de madeira, teto muito alto. Escuro. Haviam aberto buracos na madeira, ali
- colocando vidros de várias cores. Era uma atmosfera de luz mortiça, iluminado por algumas velas
- sobre o altar, uma mesa simples com um ícone oriental de Cristo. Uns poucos bancos arranjados
- em “U” definiam um amplo espaço vazio, no centro, onde quem quisesse podia se assentar numa
- almofada, sobre um tapete. Cheguei alguns minutos antes da hora marcada. Era um grande
- silêncio. Estranhei. Os suíços são sempre pontuais. A liturgia não começava. E ninguém tomava
- providências. Todos continuavam do mesmo jeito, sem nada fazer. Ninguém que se levantasse
- para dizer: “Meus irmãos, vamos cantar o hino…” Cinco minutos, dez, quinze. Só depois de vinte
- minutos é que eu, estúpido, percebi que tudo já se iniciara vinte minutos antes. As pessoas
- estavam lá para se alimentar de silêncio. E eu comecei a me alimentar de silêncio também. Não
- basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o
- silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir. Me veio agora a
- ideia de que, talvez, essa seja a essência da experiência religiosa – quando ficamos mudos, sem
- fala. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia
- que de tão linda nos faz chorar. Pra mim Deus é isso: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a
- importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do
- outro e a beleza da gente se juntam num contraponto…
Disponível em: http://www.institutorubemalves.org.br/rubem-alves/carpe-diem/cronicas/escutatoria-3/ - texto adaptado.