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Na linha 24, temos o seguinte enunciado: “Não ter obrigação...

Instrução: As questões de números 01 a 15 referem-se ao texto abaixo. Os destaques ao longo do texto estão citados nas questões.


Escutatória


Por Rubem Alves


  1. Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo
  2. mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de
  3. escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.
  4. Faz muito tempo, nunca me esqueci. Eu ia de ônibus. Atrás duas mulheres conversavam.
  5. Uma delas contava para a amiga os seus sofrimentos. Uma delas contava do marido
  6. hospitalizado, dos médicos, dos exames complicados, das injeções na veia – a enfermeira nunca
  7. acertava – dos vômitos e das urinas. Era um relato comovente de dor. Até que o relato chegou ao
  8. fim, esperando, evidentemente, o aplauso, admiração, uma palavra de acolhimento na alma da
  9. outra que, supostamente, ouvia. Contudo, o que a sofredora ouviu foi o seguinte: “Mas isso não é
  10. nada…” A segunda iniciou, então, uma história de sofrimentos incomparavelmente mais terríveis e
  11. dignos de uma ópera que os sofrimentos da primeira.
  12. Daí a dificuldade: a gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite
  13. melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele
  14. diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a
  15. gente tem a dizer, que é muito melhor. No fundo somos todos iguais às duas mulheres do ônibus.
  16. Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil da nossa arrogância e
  17. vaidade: no fundo, somos os mais bonitos…
  18. .......... grupos religiosos cuja liturgia consiste de silêncio. .......... alguns anos passei uma
  19. semana num mosteiro na Suíça, Grand Champs. Eu e algumas outras pessoas ali estávamos para,
  20. juntos, escrever um livro. Era uma antiga fazenda. Velhas construções, não me esqueço da água
  21. no chafariz onde as pombas vinham beber. ......... uma disciplina de silêncio, não total, mas de
  22. uma fala mínima. O que me deu enorme prazer às refeições. Não tinha a obrigação de manter
  23. uma conversa com meus vizinhos de mesa. Podia comer pensando na comida. Também para
  24. comer é preciso não ter filosofia. Não ter obrigação de falar é uma felicidade. Mas logo fui
  25. informado que parte da disciplina do mosteiro era participar da liturgia três vezes por dia: ___ 7
  26. da manhã, ___ meio dia e ___ 6 da tarde. Estremeci de medo. Mas obedeci. O lugar sagrado era
  27. um velho celeiro, todo de madeira, teto muito alto. Escuro. Haviam aberto buracos na madeira, ali
  28. colocando vidros de várias cores. Era uma atmosfera de luz mortiça, iluminado por algumas velas
  29. sobre o altar, uma mesa simples com um ícone oriental de Cristo. Uns poucos bancos arranjados
  30. em “U” definiam um amplo espaço vazio, no centro, onde quem quisesse podia se assentar numa
  31. almofada, sobre um tapete. Cheguei alguns minutos antes da hora marcada. Era um grande
  32. silêncio. Estranhei. Os suíços são sempre pontuais. A liturgia não começava. E ninguém tomava
  33. providências. Todos continuavam do mesmo jeito, sem nada fazer. Ninguém que se levantasse
  34. para dizer: “Meus irmãos, vamos cantar o hino…” Cinco minutos, dez, quinze. Só depois de vinte
  35. minutos é que eu, estúpido, percebi que tudo já se iniciara vinte minutos antes. As pessoas
  36. estavam lá para se alimentar de silêncio. E eu comecei a me alimentar de silêncio também. Não
  37. basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o
  38. silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir. Me veio agora a
  39. ideia de que, talvez, essa seja a essência da experiência religiosa – quando ficamos mudos, sem
  40. fala. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia
  41. que de tão linda nos faz chorar. Pra mim Deus é isso: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a
  42. importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do
  43. outro e a beleza da gente se juntam num contraponto…


Disponível em: http://www.institutorubemalves.org.br/rubem-alves/carpe-diem/cronicas/escutatoria-3/ - texto adaptado.

Na linha 24, temos o seguinte enunciado: “Não ter obrigação de falar é uma felicidade”. A expressão sublinhada pode ser classificada, sintaticamente, como:


A

Objeto Indireto.


B

Complemento Nominal.


C

Aposto.


D

Vocativo.


E

Predicativo do Sujeito.