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Uma cena
1--------É de manhã. Não num lugar qualquer, mas no
Rio. E não numa época qualquer, mas no outono.
Outono no Rio. O ar é fino, quase frio, as pedras por
tuguesas da calçada estão úmidas. No alto, o céu já
é de um azul escandaloso, mas o sol oblíquo ainda
não conseguiu vencer os prédios e arrasta seus raios
pelo mar, pelas praias, por cima das montanhas, lon-
ge dali. Não chegou à rua. E, naquele trecho, onde
as amendoeiras trançam suas copas, ainda é quase
madrugada.
2--------Mesmo assim, ela já está lá – como se à espera
do sol.
3--------É uma senhora de cabelos muito brancos, senta-
da em sua cadeira, na calçada. Na rua tranquila, de pouco
movimento, não passa quase ninguém a essa
hora, tão de manhãzinha. Nem carros, nem pessoas.
O que há mais é o movimento dos porteiros e dos
pássaros. Os primeiros, com suas vassouras e man-
gueiras, conversando sobre o futebol da véspera. Os
segundos, cantando – dentro ou fora das gaiolas.
4--------Mas, mesmo com tão pouco movimento, a se-
nhora já está sentada muito ereta, com seu vestido
estampado, de corte simples, suas sandálias. Tem o
olhar atento, o sorriso pronto a cumprimentar quem
surja. No braço da cadeira de plástico branco, sua
mão repousa, mas também parece pronta a erguer-
-se num aceno, quando alguém passar.
5--------É uma cena bonita, eu acho. Cena que se repete
todos os dias. Parece coisa de antigamente.
6--------Parece. Não fosse por um detalhe. A senhora,
sentada placidamente em sua cadeira na calçada,
observando as manhãs, está atrás das grades.
7--------Meu irmão, que foi morar fora do Brasil e ficou 15
anos sem vir aqui, ao voltar só teve um choque: as
grades. Nada mais o impressionou, tudo ele achou
normal. Fez comentários vagos sobre as árvores
crescidas no Aterro, sobre o excesso de gente e car-
ros, tudo sem muita ênfase. Mas e essas grades, me
perguntou, por que todas essas grades? E eu, espan-
tada com seu espanto, eu que de certa forma já me
acostumara à paisagem gradeada, fiquei sem saber
o que dizer.
8-------Penso nisso agora, ao passar pela rua e ver
aquela senhora. Todos os dias, o porteiro coloca ali
a cadeira para que ela se sente, junto ao jardim, em
frente à portaria, por trás da proteção do gradil pinta-
do com tinta cor de cobre. E essa cena tão singela,
de sabor tão antigo, se desenrola assim, por trás de
barras de ferro, que mesmo sendo de alumínio para
não enferrujar são de um ferro simbólico, que prende,
constrange, restringe.
9-------Eu, da calçada, vejo-a sempre por entre as tiras
verticais de metal, sua figura frágil me fazendo lem-
brar os passarinhos que os porteiros guardam nas
gaiolas, pendurados nas árvores.
SEIXAS, Heloisa. Contos mínimos. Rio de Janeiro: Record, 2001.
No trecho “Nada mais o impressionou, tudo ele achou normal” (parágrafo 7), a relação semântica construída entre as duas orações pode ser explicitada pelo conector
porém
porque
entretanto
a fim de que
apesar de que