AS QUESTÕES DE 1 A 15 ESTÃO RELACIONADAS AO TEXTO ABAIXO
TEXTO
- Lidar com as exigências de uma sociedade contemporânea com o imperativo da pressa e das incertezas, sem falar
- na quase obrigação de estar sempre conectado, ligado e produtivo, não é fácil. Não raro, esse pacote provoca um
- desequilíbrio do ritmo biológico, levando ao desenvolvimento de uma série de distúrbios igualmente contemporâneos.
- Até a Justiça já começa a se preocupar com eles. Recentemente, uma decisão favoreceu uma jovem atendente de
- telemarketing que teve uma crise nervosa e xingou um cliente. Demitida por justa causa, teve o desligamento revertido
- ao ser constatado que sofria da síndrome de burnout. Acabou ganhando o direito a uma indenização da empresa.
- Profissionais que vivem sob pressão extrema até que se sintam exauridos e incapazes de lidar com a rotina, muitas
- vezes desenvolvendo comportamentos agressivos e crises de ansiedade são candidatos clássicos ao diagnóstico de burnout
- (algo como apagado, em tradução livre). Mas essa não é, nem de longe, o único problema do tipo. Por trás deles está,
- geralmente, uma condição conhecida da maioria: o estresse, que atinge, em diferentes níveis, 70% dos trabalhadores
- brasileiros, segundo estudo da ISMA-BR, uma organização para pesquisa e prevenção da estafa no Brasil. Só o burnout
- afetaria 30% da população economicamente ativa do país.
- — O estresse em si não é uma doença, mas pode ser o gatilho, e é preciso estar alerta — explicou a psicóloga Ana
- Maria Rossi, presidente da ISMA-BR.
- O truque, segundo Ana Maria, é manter o ritmo. Não aquele imposto pelos fatores externos, mas o do corpo.
- Enxergar a alimentação saudável, a atividade física, o lazer e o sono de qualidade como prioridades, e não meros
- coadjuvantes. Isso significa estabelecer objetivos e impor limites, mesmo que, para isso, às vezes seja necessário reduzir
- expectativas.
- Foi o que precisou aprender um profissional de 36 anos do ramo de seguros. Ele conta que adorava o cargo de
- coordenador, era produtivo, considerava-se um dos melhores do setor. Doava-se quase que integralmente, esquecia de
- almoçar e até de ir ao banheiro. Por mais de uma década, sua rotina era de dez a 18 horas de trabalho diárias.
- — Não percebi que estava me deixando levar demais — lembra-se. — Há três anos, notei que algo estava estranho;
- num relatório que levava 30 minutos para fazer, comecei a gastar dois dias. Passei a ter dificuldade de me concentrar e
- comunicar, gaguejava, estava exausto e, ainda assim, passava noites inteiras sem dormir; tinha crises de choro sem motivo,
- dores de cabeça, gastrite… Cheguei a não conseguir nem tomar banho…
- Levado pela esposa, começou o tratamento psicológico e, logo, precisou se afastar do trabalho. Nesse período,
- chegou a pensar em suicídio. Voltou, depois de um tempo, para a mesma função. Porém, passado o ano seguinte no cargo
- — garantido pelo direito de estabilidade —, foi demitido. Ele alega que até conseguia realizar os projetos, mas não na
- velocidade ou da forma requeridas pela empresa.
- Autoconhecimento é um fator-chave nesse processo, defende a psiquiatra Deborah Duwe, especialista em
- tratamento de estresse:
- — É preciso se conhecer e ter a qualidade de vida como um valor. Essas pessoas, quando chegam a uma situação
- perigosa, param. É bom também ter alguém próximo que possa levantar o cartão amarelo.
- O chamado jetlag social, por exemplo, é uma sensação de cansaço permanente de quem tem muitos compromissos
- e não consegue acompanhá-los. A qualidade de sono é a primeira a ser afetada. Há um total descompasso entre rotina e
- relógio biológico. A referência, não à toa, é à fadiga provocada por viagens a lugares com o fuso horário diferente.
- A doença da pressa é um sentimento ininterrupto de urgência, de fissura na contagem do tempo.
- — É a sensação de que não vai dar tempo para nada. Daí surge a hostilidade a qualquer coisa ou pessoa que retarde
- o desenvolvimento das tarefas. Por exemplo, alguém que venha querer conversar — explicou pesquisadora do Instituto
- de Psicologia e Controle do Estresse, Marilda Lipp.
- Numa sociedade cada vez mais conectada, a dependência da tecnologia também virou síndrome. Atinge cerca de
- 10% dos brasileiros, segundo estudos. Viciadas em internet e redes sociais ou incapazes de desligar o celular, as vítimas
- têm até setor especializado para tratamento no Hospital das Clínicas de São Paulo.
- — Está explodindo o número de dependentes do Facebook, do WhatsApp… Há pessoas que simplesmente não
- conseguem se desligar hora nenhuma — comenta Deborah Duwe.
- Por isso algumas iniciativas tentam ir no sentido contrário. Movimento internacional chamado Slow (lento) prega
- uma desaceleração radical. Em alguns momentos, adeptos se encontram para não fazer absolutamente nada. E sem culpa.
- [...].
FONTE: Por Flávia Molhorance para o globo.com – FONTE: http://stressclin.com.br/site/2018/10/25/estresse-o-maiorgatilho-para-as-sindromes-da-vida-moderna/