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Meio cheio, meio vazio¹
No Parque de Exposições de Le Bourget, onde foi realizada a conferência do clima – a COP21 –, a aprovação do documento foi celebrada efusivamente [...].
O texto aprovado em Paris surpreendeu por resolver impasses que atravancavam havia anos as negociações climáticas. A começar por definir um objetivo ousado para conter o aquecimento global: os países se comprometeram a manter a temperatura média do planeta “bem abaixo de 2ºC acima dos níveis pré-industriais” e a se esforçar para limitar o aumento a 1,5ºC, uma reivindicação antiga dos países-ilha e de outras nações vulneráveis à mudança do clima. [...]
“O acordo traz todos os pontos essenciais”, resumiu a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, que liderou a delegação do Brasil em Paris. [...] A COP de Paris foi a 21ª conferência dos signatários da Convenção do Clima, estabelecida em 1992. O único tratado internacional assinado antes do Acordo de Paris, o Protocolo de Kyoto, de 1997, estabelecia obrigações apenas para os países desenvolvidos. Como não foi ratificado pelos Estados Unidos – e acabou sendo abandonado mais tarde por Canadá, Rússia e Japão –, ele surtiu pouco efeito sobre o aquecimento global. Uma tentativa de acordo mais abrangente, feita em Copenhague em 2009, também fracassou.
A lentidão das negociações climáticas ajuda a entender o entusiasmo de alguns com o Acordo de Paris. “Estávamos há vinte anos sem perspectiva nenhuma, dando murro em ponta de faca”, disse o engenheiro florestal Tasso Azevedo, veterano de COPs. “O acordo é um passo enorme.” [...] A sinalização pode ser óbvia, mas ainda é vaga. Não há no acordo uma meta numérica de redução das emissões de gases-estufa; a maior precisão a que se chega é o compromisso de que o pico das emissões mundiais – momento a partir do qual elas começariam a cair – seja atingido “o quanto antes”. Da mesma forma, a meta de descarbonização da economia, citada numa versão preliminar do acordo, ficou de fora do texto final, e não há qualquer menção aos combustíveis fósseis.
[...] O climatologista americano James Hansen, um dos primeiros a chamar a atenção do mundo para o aquecimento global, nos anos 80, declarou que o acordo tem muita promessa e pouca ação. “Enquanto os combustíveis fósseis forem os mais baratos, eles continuarão a ser queimados”, afirmou ao jornal The Guardian.
O documento aprovado na capital francesa, que só passará a valer a partir de 2020, [...] trata-se de uma lei sui generis, sem sanções. Não há qualquer punição prevista para aqueles que não cumprirem suas metas – a censura da opinião pública mundial será o único instrumento de pressão.
[...] “O acordo aponta a direção para a qual temos que caminhar, mas a velocidade ainda não é a necessária”, avaliou o ambientalista Carlos Rittl, do Observatório do Clima. O documento prevê que, a cada cinco anos, os países renovem seus compromissos, de forma a torná-los mais arrojados, mas será preciso muito mais ambição para ficar abaixo do limite almejado. “Sem o comprometimento dos países e a garantia de que vão revisitar suas metas, Paris vai resultar em nada”, afirmou o biólogo André Nahur, da WWF-Brasil.
(¹Revista Piauí - Por Bernardo Esteves, repórter de Piauí desde 2010. Texto adaptado especialmente para essa prova; acesso em 02/01/2016.).
“Sem o comprometimento dos países e a garantia de que vão revisitar suas metas, Paris vai resultar em nada”. Nessa frase, Paris se refere:
À cidade de Paris.
Ao acordo sobre as questões do clima.
Às metas do acordo.
Ao comprometimento dos países.