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Texto para as questões 13 e 14
1 ________ — Este livro não é meu! Meu Deus, o que fizeram do
meu livro?
________ A exclamação, patética, vinha da famosa jornalista
4 internacional Oriana Fallaci (no caso, como escritora), ao
perceber que a tradução brasileira de seu livro Um homem
(1981) não era fiel à estrutura paragráfica do original,
7 construída em forma de monólogo compacto. O que a escritora
concebera como blocos de longo discurso interior foi
transformado, na tradução, em diálogos convencionais. Em
10 posterior entrevista, Fallaci definiu, como criadora, seu ponto
de vista:
________ — Em Um homem, todos os diálogos são dados sem
13 parágrafo, e não só porque esse é notoriamente o meu modo de
escrever, de obter o ritmo da página, a musicalidade da língua,
mas porque isso corresponde a uma rigorosa necessidade de
16 estilo ditada pela substância do livro. Nele, o diálogo é um
diálogo recordado, um diálogo interior, e não um diálogo que
determina um diálogo. É um livro em que a forma e a
19 substância, o estilo e o significado se integram
indissoluvelmente. E trabalhei tanto para escrevê-lo! Três
longos anos sem nunca deixar aquele quarto e aquela pequena
22 mesa, jamais uma interrupção, nada de férias, nada de
domingos, nada de natais e páscoas. Sempre trabalhando, de
manhã à noite, refazendo, corrigindo, limando o estilo,
25 cuidando da ausência de parágrafos.
________ Com seu protesto, Oriana Fallaci levantou, na época,
um sério problema de editoração, aliás, um problema duplo: a
28 técnica literária do autor e — o mais importante para o editor
de texto — o respeito em relação a essa técnica, que a autora
definiu como estilo. Vejamos a questão por partes.
31 ________ No que concerne à técnica literária dos diálogos, até
o século XIX conheciam-se apenas o discurso direto e o
discurso narrativo ou indireto. A partir de meados desse século,
34 entretanto, surgiu o discurso aparente ou discurso indireto livre.
De início, nesse caso, os autores usaram aspas para não
confundir o leitor, mas estas seriam logo abandonadas como
37 técnica narrativa.
________ Quanto ao estilo, foi com a Revolução Industrial, vale
dizer, com o amadurecimento da sociedade capitalista, que os
40 escritores começaram a ter consciência não da forma em geral,
mas da forma individual, da maneira particular de exposição de
cada autor como artista que produz obra única e consumada. A
43 revolução das técnicas e do mercado, traduzindo-se no binômio
velocidade-quantidade, suscitou a massificação do livro, contra
a qual emergiu a figura do autor como artista, como criador por
46 excelência, como aquele que domina a gramática para ter o
direito de fraturá-la. Roland Barthes (1971) observa que, assim,
________ começa a elaborar-se uma imagética do escritor-artesão que se
49 ______fecha num lugar lendário, como um operário na oficina, e
________ desbasta, talha, pule e engasta sua forma, exatamente como um
________ lapidário extrai a arte da matéria, passando, nesse trabalho, horas
52_______regulares de solidão e esforço. Esse valor-trabalho substitui, de
________ certa maneira, o valor-gênio; há uma certa vaidade em dizer que
________ se trabalha bastante e longamente a forma.
55________ Desde então, ao se trabalhar com obras em que o
elemento primordial é a informação, existe a liberdade de
redisposição dos originais em benefício da clareza, mas, com
58 produção literária, impõe-se absoluto privilégio autoral, que é
um princípio socialmente reconhecido, com o qual o editor de
texto sempre convive.
Emanuel Araújo. A construção do livro: princípios da
técnica de editoração. Rio de Janeiro: Nova Fronteira;
Brasília: INL, 2000, p. 23 6 (com adaptações).
Com relação aos aspectos morfossintáticos do texto, julgue (C ou E) os seguintes itens.
O emprego de “concebera” (L.8), no pretérito mais-que-perfeito do indicativo, justifica-se, no texto, como traço estilístico da linguagem culta formal, visto que, em normas estritamente gramaticais, não há respaldo para esse uso.
Certo
Errado