Instrução: As questões de números 01 a 10 referem-se ao texto abaixo. Os destaques ao longo do texto estão citados nas questões.
“Sou eu que endoideço mais ou é esta cidade?”
Por Jackson César Buonocore
- Coringa lembra mais um filme de terror, em que o pavor e a pulsão tomam conta do público
- do início ao fim da película. O diretor Todd Phillips nos surpreende como resgate da tradição do
- realismo social, um verdadeiro “reality show” de opressão e humilhação. A Gotham City é uma
- sinopse dos Estados Unidos, que recompensa os ricos, venera as celebridades, corta os serviços
- públicos e empurra os desvalidos para o crime. Arthur Fleck, nome do Coringa no filme, revela
- que a insanidade não está apenas nele, mas na divisão entre vencedores e perdedores.
- Nos últimos 30 anos, o Coringa se transfigurou em um dos papéis mais istriônicos que um ator
- pode interpretar, permitindo-lhe fazer loucuras dramáticas para incorporar o personagem. Para
- encarnar o Coringa, Joaquin Phoenix perdeu 23 quilos e ensaiou durante quatro meses suas
- diferentes risadas cinistras. O filme é turbinado pelo show de interpretação de Phoenix, com uma
- atuação intensamente corporal, que converte Arthur em um personagem sombrio, que se maquia
- de palhaço, pinta o cabelo de verde e traz para fora de si o demente Coringa.
- A agonia de Arthur, que não se expressa só em seu riso corrosivo, ____ diversas tonalidades.
- De cada músculo do seu corpo esquálido é erigida uma coreografia elegante e sincronicamente
- patética. Coringa traz ___ baila a nossa insanidade social quando diz: “Sou eu que endoideço mais
- ou é esta cidade?”. O complexo de inferioridade é mecanismo de defesa criado por Arthur, que
- expõe o fato de viver em uma cidade injusta. Ele cuida da mãe enferma, sofre discriminação,
- passa por dificuldades econômicas e não tem relação com ninguém além da família. Por isso,
- Coringa se queixa à sua terapeuta após cometer o primeiro crime: “Durante toda a minha vida,
- eu não sabia se realmente existia, mas existo. E as pessoas estão começando a perceber”.
- Assim, o Coringa revela que os indivíduos que foram submetidos às barbaridades desde a
- infância demonstram de maneira escandalosa suas experiências negativas, entre elas: depressão,
- ansiedade, transtornos alimentares, agressividade, compulsão por sexo, etc. A cidade é o contexto
- que torna o personagem violento, pois as cenas denunciam que os oprimidos se transformam em
- opressores e reproduzem o modo de vida de uma sociedade insana.
- Portanto, o filme provoca um debate sobre a solidão, a violência física e psicológica,
- notadamente sobre a saúde mental, que é modelada por Gotham City, uma cidade fictícia marcada
- pela brutalidade, pela imundície e pela desordem, já que a loucura do Coringa é impregnada pela
- loucura do mundo. É por isso que o filme gerou polêmica nos Estados Unidos por glorificar a
- violência, em um país pródigo na ocorrência de vários atentados a tiros. Aliás, o longa-metragem
- nos mostra que é cada vez mais comum ver pessoas depressivas e ansiosas em grandes e médias
- cidades por causa de uma notória urbanização desigual.
- Então, o palhaço interpretado por Phoenix deixa claro para os cinéfilos que o vilão sofre de
- transtornos psiquiátricos: ele toma remédios diferentes, cita ter sido internado num hospício,
- devaneia sobre uma relação que não teve e dá risadas destoantes de suas emoções. Por fim, o
- resultado compõe o retrato de um homem insano, com um grande complexo de Édipo, que se
- sente excluído pela sua cidade, ou seja, um drama que faz um link com a vida real de homens e
- mulheres que vagueiam pelas urbes adoecidas, cometendo doidices e crimes.
Texto adaptado. Disponível em: https://www.contioutra.com/coringa-sou-so-eu-ou-esta-cidade-esta-ficando-cada-vez-mais-louca/