

Seu próximo nível começa aqui
Seu desenvolvimento não pode ter limites. Garanta sua Assinatura Ilimitada e libere uma preparação completa com os melhores professores do Brasil.
Texto – Nós, os brasileiros
1 Uma editora europeia me pede que traduza
2 poemas de autores estrangeiros sobre o Brasil.
3 Como sempre, eles falam da floresta
4 Amazônica, uma floresta muito pouco real,
5 aliás. Um bosque poético, com “mulheres de
6 corpos alvíssimos espreitando entre os troncos
7 das árvores, [...]”. Não faltam flores azuis,
8 rios cristalinos e tigres mágicos.
9Traduzo os poemas por dever de ofício,
10 mas com uma secreta – e nunca realizada –
11 vontade de inserir ali um grãozinho de
12 realidade.
13 Nas minhas idas (nem tantas) ao exterior,
14 onde convivi, sobretudo, com escritores ou
15 professores e estudantes universitários –
16 portanto, gente razoavelmente culta – fui
17 invariavelmente surpreendida com a profunda
18 ignorância a respeito de quem, como e o que
19 somos.
20 – A senhora é brasileira? Comentaram
21 espantados alunos de uma universidade
22 americana famosa. – Mas a senhora é loira!
23 Depois de ler, num congresso de
24 escritores em Amsterdã, um trecho de um dos
25 meus romances traduzido em inglês, ouvi de
26 um senhor elegante, dono de um antiquário
27 famoso, que segurou comovido minhas duas
28 mãos:
29 Que maravilha! Nunca imaginei que no
30 Brasil houvesse pessoas cultas!
31 Pior ainda, no Canadá alguém exclamou
32 incrédulo:
33 – Escritora brasileira? Ué, mas no Brasil
34 existem editoras?
35 A culminância foi a observação de uma
36 crítica berlinense, num artigo sobre um
37 romance meu editado por lá, acrescentando, a
38 alguns elogios, a grave restrição: “porém não
39 parece um livro brasileiro, pois não fala nem
40 de plantas nem de índios nem de bichos”.
41 Diante dos três poemas sobre o Brasil,
42 esquisitos para qualquer brasileiro, pensei
43 mais uma vez que esse desconhecimento não
44 se deve apenas à natural (ou inatural)
45 alienação estrangeira quanto ao
46 geograficamente fora de seus interesses, mas
47 também a culpa é nossa. Pois o que mais
48 exportamos de nós é o exótico e o folclórico.
49 Em uma feira do livro de Frankfurt, no
50 espaço brasileiro, o que se via eram livros
51 (não muito bem arrumados), muita caipirinha
52 na mesa, e televisões mostrando carnaval,
53 futebol, praias e... matos.
54 E eu, mulher essencialmente urbana,
55 escritora das geografias interiores de meus
56 personagens eróticos, me senti tão deslocada
57 quanto um macaco em uma loja de cristais.
58 Mesmo que tentasse explicar, ninguém
59 acreditaria que eu era tão brasileira quanto
60 qualquer negra de origem africana vendendo
61 acarajé nas ruas de Salvador. Porque o Brasil
62 é tudo isso.
63 E nem a cor de meu cabelo e olhos, nem
64 meu sobrenome, nem os livros que li na
65 infância, nem o idioma que falei naquele
66 tempo, além do português, me fazem menos
67 nascida e vivida nesta terra de tão
68 surpreendentes misturas: imensa,
69 desaproveitada, instigante e (por que ter
70 medo da palavra?) maravilhosa.
(Lya Luft. Pensar é transgredir. Rio de Janeiro: Record, 2009, pág. 49 – 51)
A relação de ideias estabelecida nas orações está identificada corretamente em
“Traduzo os poemas por dever de ofício, mas com uma secreta – e nunca realizada – vontade de inserir ali um grãozinho de realidade.” (linhas 9-12) – causa.
“Mesmo que tentasse explicar, ninguém acreditaria que eu era tão brasileira...” (linhas 58-59) – concessão.
“...não parece um livro brasileiro, pois não fala nem de plantas nem de índios nem de bichos”. (linhas 38-40) – comparação.
“...me senti tão deslocada quanto um macaco em uma loja de cristais.” (linhas 56-57) – consequência.