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Texto para as questões de 1 a 10.
1 ____ Dia desses, por alguns momentos, a cidade parou.
As televisões hipnotizaram os espectadores, que assistiram,
sem piscar, ao resgate de uma mãe e de uma filha. Seu
4 automóvel caíra em um rio. Assisti ao evento em um local
público. Ao acabar o noticiário, o silêncio à volta do
aparelho se desfez e as pessoas retornaram às suas
7 ocupações habituais. Os celulares recomeçaram a tocar.
Perguntei-me: indiferença? Se tomarmos a definição ao pé
da letra, indiferença é sinônimo de desdém, de
10 insensibilidade, de apatia e de negligência. Mas podemos
considerá-la também uma forma de ceticismo e
desinteresse, um “estado físico que não apresenta nada de
13 particular”; enfim, explica o dicionário, uma atitude de
neutralidade.
Conclusão? Impassíveis diante da emoção,
16 imperturbáveis diante da paixão, imunes à angústia, vamos
hoje burilando nossa indiferença. Não nos indignamos mais!
À distância de tudo, seguimos surdos ao barulho do mundo
19 lá fora. Dos movimentos de massa “quentes” (lembram-se
do “Diretas já”?) onde nos fundíamos na igualdade,
passamos aos gestos frios, nos quais indiferença e distância
22 são fenômenos inseparáveis. Neles, apesar de iguais, somos
estrangeiros ao destino de nossos semelhantes. Damos as
voltas que forem necessárias para não toparmos com o
25 outro, com o diferente.
O mundo exterior nos bombardeia com a miséria,
a selvageria, a violência e, simultaneamente, com o riso, a
28 anedota e a festa. Mas, pelo tubo ótico, um morto é igual
ao outro. Mais e mais a televisão ensina o nosso olhar a
perder o uso da perspectiva. Ela apaga as asperidades e os
31 relevos; não há mais diferença entre o real e o imaginário.
Na tela, pessoas tornam-se coisas e coisas tornam-se
pessoas. Assim, findo o resgate, mãe e filha se afogaram na
34 nova máquina de lavar, na espuma do novo detergente. E,
de quadro em quadro, vamos assistindo, desencantados, a
nossa posição ética perante o mundo anestesiar-se.
37 ____ Não adianta trocar de canais: a mensagem é
sempre a mesma. Não sentir, não pensar, não falar ou falar
com indiferença do que não nos toca jamais. A
40 modernidade, denunciaram alguns filósofos, não passa de
um enorme dispositivo para nos “acostumar”; acostumar
com o espetáculo diário do sofrimento televisionado,
43 acostumar com nossa função de consumidores anônimos e
apáticos. Antes de ligar a televisão, antes mesmo de pensar
em poupar energia, vou pensar nisso.
Mary Del Priore. Indiferença e modernidade. In: Histórias do cotidiano. Editora Contexto, 2001 (com adaptações).
No texto, predomina o tipo textual
argumentativo.
descritivo.
narrativo.
informativo.
instrucional.