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Texto para os itens de 1 a 20.
1 ____ Eu nunca tinha ouvido falar dela. Vivo neste edifício
de 70 apartamentos há alguns anos. A maioria dos moradores
só encontro na reunião de condomínio. Há o velho que toma
4 sol pela manhã e me cumprimenta sorridente, porque lá em
casa a gente se dá tchau na janela quando alguém sai. Ele
acha curiosíssimo e acompanha o ritual enternecido. Há as
7 mulheres que passeiam com os cachorros, e as que fiscalizam
o crescimento das roseiras do jardim. E o Pedrão, um
aumentativo irônico para um cachorro tão pequeno, tão
10 desmilinguido e cego pela idade, que sobe e desce o elevador
comigo, protegendo com os olhos erráticos um dono que é
quase um gigante. Há o vizinho de passo marcial que não
13 cumprimenta ninguém. E ela, que morava lá havia uma
eternidade, mas a quem eu nunca vira.
Numa tarde vêm o chaveiro, os bombeiros e a
16 polícia. Arrombam a porta do apartamento. E somos todos
lançados para dentro de uma paisagem muito semelhante à
nossa, mas que era dela. As histórias de sua vida me alcançam
19 aos farrapos. Aos 82 anos de idade, ela vivia só. Tinha sido
médica, com consultório no centro de São Paulo. Era uma
mulher independente, que veio do interior para vencer na
22 cidade grande, quando as mulheres de sua geração apenas
recolhiam os passos até a casa do marido. Viajou o mundo,
falava várias línguas, expressas nos livros espalhados pela
25 casa. Não sei de seus amores, ninguém ali sabe. De repente,
ela se descobriu só. Não queria morrer, só não sabia como
seguir vivendo.
28 ____A vizinha do lado percebeu que ela não mais saía de
casa. Insistiu com o síndico, com o zelador, algo estava
errado. Ela nem atendia mais a porta, e um cheiro novo
31 impregnava o corredor. Mas a lei não escrita da cidade
grande determina não perturbar a privacidade de ninguém.
Cada um é uma ilha — ou um apartamento.
34 Proprietário-indivíduo de seu número de metros quadrados
aéreos no mundo. Os funcionários do condomínio devem
avisar pelo interfone quando vão entregar uma
37 correspondência que precisa ser assinada, porque, do
contrário, muitos moradores sequer abrem a porta. Ninguém
ousou perguntar se algo diferente estava acontecendo com
40 ela.
Naquela tarde, a conhecida de uma associação onde
ela trabalhava como voluntária veio procurá-la, preocupada
43 com seu sumiço. Ela então conseguiu se arrastar e sussurrar
que não tinha forças para abrir a porta. Quando a porta caiu,
e os fossos foram transpostos, descobriu-se que havia dois
46 meses ela vivia no escuro, à luz de velas primeiro, nada
depois. A energia elétrica tinha sido cortada por falta de
pagamento. Ela já não podia andar. E há semanas quase não
49 comia. A doutora estava morrendo de fome em meio a
centenas de pessoas na cidade de milhões. Foi levada ao
hospital, onde agora briga para viver.
Eliane Brum. Dois andares abaixo do meu. In: A menina quebrada. Porto Alegre-RS: Arquipélago Editorial, 2013 (com adaptações).
Com relação aos aspectos linguísticos do texto, julgue os itens de 11 a 20.
O superlativo em “curiosíssimo” (linha 6) dá ênfase à característica de curioso que a narradora atribui ao velho a quem se refere no primeiro parágrafo.
Certo
Errado