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Analise as relações de sentido apresentadas a seguir.1...

TEXTO 1


Deixem eu ser brasileiro!

Sou tradutor profissional há mais de trinta anos e a experiência acumulada nesse tempo me confere uma cristalina certeza: boa parte dos revisores que trabalham nas nossas editoras pertencem a uma seita secreta (ou grupo criptoterrorista) que tem como missão única na vida sabotar, boicotar ao máximo (quando não ocultar por completo) o português brasileiro, impedir que ele se consagre na língua escrita livresca, para preservar tanto quanto possível a norma-padrão obsoleta, anacrônica e arcaica que eles julgam ser a única forma digna de receber o nome de “língua portuguesa”. [...]

Sempre fico irritadíssimo (literalmente, com coceira no corpo todo!) quando recebo os meus exemplares de tradutor e, ao reler o que escrevi, encontro uma infinidade de “correções” que representam a obsessão paranoica de expurgar do texto escrito qualquer “marca de oralidade” (como se isso fosse possível), qualquer característica propriamente brasileira de falar e de escrever. É sistemático, é premeditado, é uma conspiração altamente organizada (só pode ser!). Todos os “num” e “numa” que uso são insuportavelmente esquartejados em “em um” e “em uma”, como se essas contrações, presentes na língua há mais de mil anos, fossem algum tipo de vício de linguagem. Me pergunto por que não fazem o mesmo com “nesse”, “nisso” etc., ou com “no” e “na”: não seria lindo ver “em a”, “em o”, “em esse”? Não, seria um nojo! Por que essa perseguição estúpida ao “num”, “numa”?

O mesmo acontece com o uso de “tinha” na formação do mais-que-perfeito composto: “tinha visto”, “tinha dito”, “tinha falado” são implacavelmente transfiguradas em “havia visto” etc., embora qualquer criancinha saiba que o verbo ‘haver’, no português brasileiro, é uma espécie em extinção, confinada a raríssimos ecossistemas textuais... Por que não fazem o mesmo com “tenho visto”, “tenho dito” e “tenho falado”? Já pensou que vomitivo seria ler “hei visto”, “hei dito”, “hei falado”? [...] E quando querem convencer o resto do universo de que existe alguma diferença entre este e esse? Uma diferença que a pesquisa linguística brasileira já mostrou que não existe há mais de um século! [...]

É claro que o sintoma mais visível e gritante desse fundamentalismo retrógrado consciente é a putrefacta, abjeta, torva e torpe colocação pronominal. A próclise, isto é, o pronome antes do verbo principal, é veementemente combatida, enxovalhada, humilhada, ainda que ela seja a única regra natural de colocação dos pronomes oblíquos na nossa língua. Isso já estava provado em textos de João Ribeiro, em 1920! O combate é tão furibundo e insano que até mesmo aonde a tradição gramatical exige a próclise ela é ignorada, e os livros saem com coisas como “não conheço-te”, “já formei-me”, “porque viram-nos”, esses filhotes teratológicos da hipercorreção.

Só me resta, então, apostrofar: Senhoras revisoras e senhores revisores, deixem a gente escrever em português brasileiro, pelo amor de Oxum, de Ogum e de Xangô! Consultem os seus calendários: estamos no século 21, e não nos brumosos anos de 1500! Consultem seus mapas: estamos no Brasil, e não em alguma esquina úmida e enevoada da (lindíssima) cidade do Porto! Vão estudar um pouco, um pouquinho só, larguem sua religião e pratiquem um pouco de ciência, saiam de sua redoma de vidro impermeável às mudanças da língua e venham aprender como se fala e se escreve o português do Brasil!

Leiam alguns verbetes dos nossos melhores dicionários e aprendam que não tem nada de errado em escrever “assisti o filme”, “deixa eu ver”, que a forma “entre eu e você” não é nenhum atentado contra a língua, nem muito menos “eu custo a crer”, que óculos é substantivo singular, que meia é advérbio flexionado etc. etc. etc.! Esqueçam o que dizem pasquales, sacconis e squarisis, esses charlatães da gramática que não enxergam um palmo adiante do nariz tapado e dos olhos com viseiras! Consultem o Houaiss, o Aurélio, o novíssimo Aulete! Leiam Luís Fernando Veríssimo, Fernanda Torres e Antônio Prata, nossos melhores prosadores na nossa melhor língua brasileira! Ouçam os apelos que ecoam no tempo de José de Alencar, Mário de Andrade, Monteiro Lobato e tantos outros que há tanto tempo pedem, suplicam, rogam, imploram: deixem eu falar e escrever na minha língua, na língua que é a única capaz de expressar meus sentimentos, emoções e ideias! Deixem eu ser brasileiro!

Marcos Bagno. Disponível em: https://www.facebook.com/notes/marcos-bagno/deixem-eu-ser-brasileiro/951653864929017. Acesso

em: 22/04/2019. Adaptado.

Analise as relações de sentido apresentadas a seguir.


1. “norma-padrão anacrônica” significa ‘norma-padrão antagônica’.

2. “É sistemático, é premeditado” equivale a ‘é sistemático, é planejado’.

3. “fundamentalismo retrógrado” quer dizer ‘fundamentalismo antiquado’.

4. “A próclise é veementemente combatida” significa: ‘a próclise é usualmente combatida’.


Está(ão) CORRETA(S), apenas:


A

1.


B

1 e 4.


C

1, 3 e 4.


D

2 e 3.


E

2 e 4.