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Os vocábulos “porventura” (linhas 1 e 9) e “Decerto” (linha...

Texto 3 para responder às questões 7 e 8.

...

1-----Seriam porventura dez horas da noite...

Desde muitos dias os jornais vinham polindo a

curiosidade pública, estufados de notícias e reclamos de

4 festa. O Clube Automobilístico dava o seu primeiro grande

baile. Tinham vindo de Londres as marcas do cotilhão e

corria que as prendas seriam de sublimado gosto e valor. Os

7 restaurantes anunciavam orgíacos revelhões de Natal. Os

grêmios carnavalescos agitavam-se.

Seriam porventura dez horas da noite quando esse

10 homem entrou na praça Antônio Prado. Trazia uma pequena

mala de viagem. Chegara sem dúvida de longe e denunciava

cansaço e tédio. Sírio ou judeu? Magro, meão na altura, dum

13 moreno doentio abria admirativamente os olhos molhados

de tristeza e calmos como um bálsamo. Barba dura sem

trato. Os lábios emoldurados no crespo dos cabelos

16 moviam-se como se rezassem. O ombro direito mais baixo

que o outro parecia suportar forte peso e quem lhe visse as

costas das mãos notara duas cicatrizes como feitas por balas.

19 Fraque escuro, bastante velho. Chapéu gasto dum negro

oscilante.

Desanimava. Já se retirara de muitos hotéis sempre

22 batido pela mesma negativa: — Que se há-de fazer! Não há

mais quarto!

Alcançada a praça o judeu estacou. Pôs no chão a

25 maleta e recostado a um poste mirou o vaivém. O povo

comprimia-se. Erravam maltrapilhos aos grupos

conversando alto. Os burgueses passavam esmerados no

28 trajar. No ambiente iluminado dos automóveis esplendiam

os peitilhos e as carnes desnudadas e aos cachos as

mulheres-da-vida roçavam pela multidão, bamboleando-se,

31 olhos pintados, lábios incrustados de carmim. Boiando no

espaço estrias de odores sensuais.

O homem olhava e olhava. Parecia admiradíssimo.

34----Por várias vezes fez o gesto de tirar o chapéu mas a

timidez dolorosa gelava-lhe o movimento. Continuava a

olhar.

37---.— Vais ao baile do Clube?

— Não arranjei convite. Você vai?

— Onde irás hoje?

40---.— Como não! Toda São Paulo estará lá.

— Ao réveillon do Hotel Sportsman.

— Vamos ao Trianon!

43---.— Por que não vens comigo à casa dos Marques? Há

lá um Souper-rose.

— Impossível.

46--.-— Por quê?

— Não Posso. Vou ter com a Amélia.

— Ah...

49---Tirando respeitoso o chapéu, o oriental dirigiu-se por

fim ao homem que dissera “ir ter com a Amélia” e

perguntou-lhe com uma voz tão suave como os olhos —

52 caíam-lhe os cabelos pelas orelhas, pelo colarinho:

— O senhor vai sem dúvida para o seu lar...

Decerto um louco. Não, bêbedo apenas. O outro deu

55 de ombros. Descartou-se:

— Não.

— Mas... e o senhor poderia informar-me... não é

58 hoje noite de Natal?...

— Parece. (E sorria.) Estamos a 24 de dezembro.

— Mas...

61----O homem da Amélia tocara no chapéu e partira.

Desolação, no sacudir lento da cabeça. Agarrando a maleta o

judeu recomeçou a andar. Tomou pela rua de São Bento,

64 venceu o último gomo da rua Direita, atingiu o Viaduto. A

65 vista era maravilhosa.

....

ANDRADE, Mário de. Conto de Natal. O Melhor de Mário de Andrade:

contos e crônicas (Coleção O melhor de).

Nova Fronteira. Edição do Kindle, com adaptações.

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Em relação aos aspectos linguísticos e aos sentidos do texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.

Os vocábulos “porventura” (linhas 1 e 9) e “Decerto” (linha 54) são sinônimos e intercambiáveis no texto.


C

Certo


E

Errado