Instrução: As questões de números 01 a 10 referem-se ao texto abaixo. Os destaques ao longo do texto estão citados nas questões.
Dia da Terra: a hora de virar a chave
- “Você está na biblioteca de Alexandria e percebe que sua prateleira está em chamas. Uma
- ala toda já queimou, e os vândalos lá fora impedem os bombeiros de entrar. O que fazer?” A
- pergunta está num artigo de 1992, escrito pelo físico e escritor de ficção científica Gregory
- Benford. Ele escreve que é uma má ideia andar corredor por corredor atrás dos tratados mais
- importantes de Aristóteles ou qualquer outra solução pedante do gênero. (Afinal, quem é você
- para decidir quais conhecimentos serão úteis para a posteridade?)
- Por outro lado, pegar só o que está por perto – e sair sobrecarregado com os itens de uma
- única seção do prédio – também é ruim: seja lá quais forem as necessidades da posteridade, é
- certo que não estão todas convenientemente dispostas na prateleira mais próxima. Pensando
- com frieza, o melhor caminho é trabalhar por amostragem: correr pelo resto da biblioteca
- coletando um certo número de escritos aleatórios de cada seção; talvez dando preferência ___
- textos menores, para carregar mais.
- Benford faz esse exercício de imaginação porque queria empregá-lo, na prática, para salvar
- um outro tipo de biblioteca, que está em chamas neste exato momento: o patrimônio genético
- da Terra.
- É inevitável: muita coisa ficaria de fora. Entretanto, poderíamos guardar o suficiente para
- garantir que cientistas do futuro tenham algum acesso __ riqueza do bioma, mesmo que ele
- tenha cessado de existir.
- A biblioteca de Benford nunca saiu do papel. Na prática, o mais próximo de uma proposta
- assim na vida real é o Silo Global de Sementes de Svalbard, construído em 2008 em um
- arquipélago ao norte da Noruega. Ele contém 1 milhão de sementes diferentes congeladas: são
- 12 mil anos de agricultura resumidos num prédio.
- Milhares de espécies não chegarão __ ser descritas, pois serão ou foram extintas antes
- disso. Em um momento mediano da história da Terra, algo entre uma e dez espécies são extintas
- por ano. Porém, atualmente, em virtude da ação humana, estima-se que ocorra algo na casa
- das mil extinções por ano.
- A maior parte dos acadêmicos concorda que há uma extinção em massa em andamento
- no Holoceno – o nome da época geológica em que vivemos.
- Nos anos 1950, descobrimos que todas __ formas de vida armazenam seu manual de
- instruções de maneira idêntica: dê um pedacinho de genoma humano a uma bactéria e ela
- prontamente lerá as instruções para fabricar as moléculas que compõem nosso corpo.
- Não dá para ler, porém, os DNAs de espécies que não existem mais. O que não é apenas
- uma tragédia para o planeta, mas também para nós, que nunca poderemos nos beneficiar de
- suas traquitanas biotecnológicas. A OMS estima que o Brasil, com 20% da biodiversidade
- mundial, tenha até 10 mil espécies com alguma aplicação plausível na medicina, mas 85% (95%,
- em certas estimativas) das espécies amazônicas serão afetadas pelo aquecimento global de
- alguma forma.
- Nas palavras do ecologista Robert May, que ecoam Alexandria: “Nós estamos queimando
- os livros antes de aprender a lê-los”. E essa leitura não tem um objetivo necessariamente
- altruísta. Em muitos casos, bancos genéticos são a única estratégia para salvar nossa própria
- pele. Apareça num laboratório da Embrapa, ou no Centro de Pesquisa Genômica para Mudanças
- Climáticas da Unicamp, e você verá agrônomos brasileiros usando genes de plantas do cerrado
- e da caatinga para projetar cereais resistentes ao calor e às secas – que, inevitavelmente, virão
- com as mudanças climáticas.
(Disponível em: https://super.abril.com.br/especiais/dia-da-terra-a-hora-de-virar-a-chave/ – texto
adaptado especialmente para esta prova).