Instrução: As questões de números 01 a 10 referem-se ao texto abaixo.
Barulhos Urbanos
Por Martha Medeiros
- Creio que eram seis horas da manhã. Reparei pelas frestas da cortina que o dia estava
- amanhecendo. O barulho era de tontear; algo muito grave deveria ter acontecido para um
- helicóptero ficar parado bem em cima do meu edifício. Pior: ele parecia estar alinhado à minha
- janela. Aos poucos, fui voltando do sono e disse a mim mesma: deve ter acontecido um assalto
- a banco, e estão à procura de fugitivos.
- Entretanto, helicóptero, insistente, não voava para longe: parecia resoluto em não se
- deslocar.
- Desisti de voltar dormir, não conseguiria. Levantei, fui sala, abri porta de correr
- que dá para a sacada e olhei para o céu. Nada. Então, olhei para baixo, e ali estava o helicóptero,
- estacionado num terreno descampado. Ali, diante dos meus olhos, o helicóptero que não era
- helicóptero, e sim um equipamento de construção civil ligado na velocidade máxima; um
- trambolho que fazia um barulho idêntico ao de um helicóptero e que continuaria a me servir de
- despertador nas manhãs seguintes.
- Se você é morador de uma grande cidade, também deve ter um helicóptero matinal
- entrando pelos ouvidos, ou uma bateria de escola de samba, ou uma turbina de avião, ou
- qualquer coisa excessivamente barulhenta que seja oriunda do que se chama obra. Metrópoles
- estão em constante construção. Aqui onde moro, há essa obra bem em frente ao meu prédio,
- outra bem ao lado e duas logo atrás. Silêncio? Estamos em falta.
- Não há como reclamar para o bispo. Obras são efeitos colaterais do progresso, e o barulho
- faz parte do pacote, pois não se ergue um edifício aos sussurros.
- Então, como tenho escritório em casa, trabalho o dia inteiro com essa trilha sonora pouco
- romântica. Desde a manhã até o final da tarde, escrevo, escrevo, escrevo e não ouço o toque
- dos meus dedos sobre o teclado porque ele é abafado pelos motores de equipamentos pesados,
- caminhões despejando cimento, batidas de estacas. Uma orquestra em permanente ensaio, e só
- resta adaptar-me, já que um dia o edifício onde moro também foi um esqueleto que não foi posto
- em pé quietinho.
- Sou uma escritora de apartamento e digo isso com o mesmo tom pejorativo que
- classificamos crianças de apartamento. Deveríamos estar cercados por jardins, margens de rio,
- praias abertas, mas vivemos confinados entre quatro paredes que, de certa forma aleijam a
- inspiração. Escrever, lógico, me oferece várias oportunidades de fuga. Estou onde estou,
- fisicamente, mas também não estou: invento meu próprio lago, pátio, horizonte. Até que volto
- a ser atingida pela consciência do inevitável: não é o barulho do mar que escuto, nem o das
- folhas caindo nesse final de outono e sim o de betoneiras, perfuratrizes, compactadores, rolos
- compressores. De poético me restou apenas a chuva. Quando chove, a obra para. Quando chove,
- o helicóptero some. Quando chove, o silêncio me pisca o olho: “Aproveita a trégua e me escuta”.
(Disponível em: A graça das coisas. L&PM Editores, 2013 – texto adaptado especialmente para esta prova).