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Juridiquês, pra que te quero?
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Os advogados se especializam no jurisdiquês. Os economistas, no economês. Os pedagogos, no pedagogês. Os programadores, no informatiquês. O nome dessas e de falas do mesmo time têm clara intenção pejorativa. Traduz a linguagem rebuscada, cheia de floreios e marcada pela ânsia de exibição. “Viu como sou erudito?”, parece perguntar o profissional que acredita no quanto mais prolixo melhor.
Não é sem razão. Entre nós há uma unanimidade. Adoramos gente que fala bonito. Manipular palavras com esmero é pura sedução. Com ela sonhamos todos nós. A fluência verbal abre portas. Dirime controvérsias. Conquista adeptos. O orador desenvolto fala de improviso. Cativa plateias. É o maior.
O encantamento vem das palavras. Não tem nada a ver com o significado. É comum ouvir o suspiro de um deslumbrado. Depois o comentário: “Que maravilha! Como ele é culto! Não entendi muita coisa. Mas ele fala tão bem...” A adoração fica por conta do falar. Não do dizer.
Os políticos sabem disso. Falam bonito. Não poupam vênias e excelências. Períodos longos, mil orações intercaladas, metáforas, desvios pra lá e pra cá, imagens, vale tudo. No final, a gente não entende muito bem o recado. Mas bate palmas.
Fernando Sabino contou um caso ilustrativo. Passa-se na Câmara. Era quinta-feira, dia de plenário e galerias lotados. O deputado dirigiu-se à tribuna. Cumprimentou o excelentíssimo senhor presidente e os nobres parlamentares. Depois, partiu para o improviso.
Começou mal: “Não sou daqueles que...” Pintou a dúvida. O verbo vai para o plural? Ou será singular? Falou que falou. Intercalou frases. Fez comparações. Enrolou de montão. Nada. A oração continuava sem verbo. Com o tempo esgotado, pediu mais um minuto. Sem se decidir por um ou outro número, concluiu: não sou daqueles. Tenho dito. A sala desabou de aplausos.
Como explicar a verbolatria? “O brasileiro desconfia do que entende”, diagnosticou Nelson Rodrigues. “O brasileiro tem alma de vira-lata”, deduziu Glauber Rocha. “Sempre se sente diminuído.” Antônio Cândido explicou o fenômeno. Chamou-o deslumbramento do colonizado.
É mais ou menos isto: quando os portugueses chegaram aqui, encontraram índios. Depois vieram os escravos. Uma massa de analfabetos formava o grosso da população. Os poucos portugueses ou descendentes que iam à Europa estudar voltavam com a cabeça feita. Tinham vergonha do que viam. Não era esse o mundo onde poderiam exibir todo o conhecimento acumulado em Lisboa, Paris ou Londres. Para quem escrever? Para quem falar?
O jeito era esquecer o Brasil, feio, pobre, explorado e atrasado. Fizeram uma mágica. O corpo ficaria aqui, mas os olhos lá. Quando falavam ou escreviam, dirigiam-se a um público imaginário — culto e refinado. Era uma boa. A realidade que não queriam enxergar ficava cada vez mais longe.
A moda quase se perpetuou. Mas não há bem que sempre dure nem mal que nunca se acabe. O país se urbanizou. A população teve acesso à escola. O saber se amplia em progressão geométrica. Mas o dia mantém as 24 horas. Livros, jornais, revistas, internet, e-mails, tevês, cinemas, família, trabalho — falta tempo para tantos apelos.
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No estilo denso, cada palavra conta. O jurisdiquês, claro, entra na fatura. Mas tem hora e vez.
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Dad Squarisi https://blogs.correiobraziliense.com.br/dad/juridiques pra que te quero. Adaptado.
A fluência verbal abre portas. Dirime controvérsias. Conquista adeptos. O orador desenvolto fala de improviso. Cativa plateias. É o maior. (2º parágrafo)"
A sequência de frases acima se organiza pelo seguinte procedimento:
comparação
espacialização
gradação
contraposição