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“O atual contexto de pandemia em que estamos vivendo nos...

Texto I


ESPERANÇAR EM TEMPOS DE PANDEMIA: RELATO DE UMA PROFESSORA DA

REDE PÚBLICA DE BELO HORIZONTE


____O atual contexto de pandemia em que estamos vivendo nos faz pensar sobre os

impactos que tudo isso tem acarretado em nós docentes e discentes. Entre penhascos e

abismos, procuramos uma ponte que nos mostrasse o caminho a seguir. Podemos dizer que

a nossa meta de 2020 foi a de tentar sobreviver. E olhe que isso não foi uma tarefa fácil! De

5 repente todas as nossas certezas se foram, roubaram a nossa rotina e tivemos que aceitar

uma outra, imposta “goela abaixo”. Coisas simples e corriqueiras como ir trabalhar na escola,

encontrar com os estudantes, ir para a sala de aula, sentar em rodinhas, dialogar, brincar,

aprender e divertir foram abruptamente congeladas e, no lugar disso, ficaram o medo do

vírus, o distanciamento social e o olhar a vida de longe, pelos muros, janelas e mídias sociais.

10__A reação inicial é que professores e estudantes ficaram perplexos diante desse novo

cenário que se apresentava. Se, no ensino presencial, já era difícil fazer da Educação e do

exercício de ensino e aprendizagem um ato prazeroso, interessante, que cativasse as

crianças e as motivasse à exploração do novo, ao encanto com as descobertas, quem dirá

agora no ensino a distância. Como professora do Ensino fundamental e da escola pública, a

15_ única certeza que tenho é a de que estamos tentando fazer o nosso melhor. Literalmente é

como se acabássemos de sair da graduação de Pedagogia e estivéssemos inexperientes

com a nossa primeira turma, tamanhas são as nossas perguntas e indagações para o

momento. Como atingir a todos sem exceção? Como estarão nossas crianças? Estão com

saúde? Como são as relações de convivência em sua casa? Estão se alimentando? Estão

20 brincando? Estão sendo crianças e vivendo a infância em sua plenitude? Enfim, não temos

experiência ou um modelo a seguir para lidar com esse novo cenário e, com o coração

apertado, vamos tentando oferecer aos estudantes, dentro das possibilidades, aquilo que

nos é permitido: estabelecer vínculos que possam trazer um certo conforto e carinho para

eles. Tentamos nos fazer presentes nesse momento tão instável e difícil para todos. O

25 sofrimento é geral. Tiraram o nosso chão e aprender a usar as novas ferramentas

tecnológicas não é o nosso maior problema, mas entender, de fato, quais são as reais

necessidades de docentes e discentes, bem como oferecer a humanização de todo esse

processo, para que não seja tão doloroso e cruel.

____Por outro lado, tenho avaliado o que nos foi tirado em 2020 e confrontado essa perda

30 com os ganhos que, mesmo que indiretamente, a pandemia nos trouxe. Se pudéssemos

condensar todas as lacunas, certamente uma indagação se sobressairia: “O que de fato é

importante agora?” Se o objetivo era sobreviver e estamos nos cuidando e com saúde, já

estamos no caminho certo. Temos que ter essa clareza de que precisamos aproveitar o

tempo e as oportunidades que nos são dadas e, enquanto professora, vários pensamentos

35 me assolam: “O que os estudantes esperam de mim? O que gostaria de oferecer aos meus

estudantes? O que significa a escola para eles? De que maneira posso estabelecer vínculos

com as crianças?”.

____Cada escola tem feito as suas escolhas metodológicas e pedagógicas, de acordo com

o seu público escolar para chegar até os estudantes, para criar pontes humanas em um

40 ambiente virtual. Em meio a essas decisões, o que não podemos perder de vista é que a

escola precisa ser democrática e igualitária, precisa de veículos que cheguem a todos sem

exceção; e que, chegando até todos os estudantes, o ensino e a aprendizagem sejam reais

e significativos para eles. Temos que parar de focar em conteúdos compartimentados e

dissociados da realidade e sim propiciar que as crianças sejam afetadas e movidas à

45 construção do interesse pelas oportunidades reais de aprendizagem.

____[...]

____A Educação Humanizada já nos dá uma direção assertiva a seguir. Lidamos com

pessoas, com crianças e essas relações construídas são pontes que nos ligam ou desligam

uns dos outros, que constroem ou destroem, que formam ou deformam. Daí a importância

50 de viver o momento com calma, de buscar encontrar o humano em nós mesmos e nos outros,

não nos preocupando com números, planilhas e índices a alcançar, mas vivendo

intensamente cada momento no contato gerador de aprendizagem... E tudo bem se não

dermos conta, o que não pode acontecer é desistir. Desistir de recomeçar, desistir de lutar,

desistir de viver! É o esperançar de Paulo Freire: “É preciso ter esperança, mas ter esperança

55 do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança

do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás,

esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é

juntar-se com outros para fazer de outro modo…” (FREIRE, 1992, s. p.).

____O grande aprendizado destes tempos tem sido o de valorizar o momento presente e

60 tentar reunir forças (de onde nem imaginamos que teríamos) para dar os nossos passos,

nos movendo, tirando-nos do lugar do medo, reinventando-nos nesses caminhos tortuosos

e também incentivando os nossos estudantes a darem seus primeiros passos, tentando

sobreviver e viver nesse desconhecido mundo pandêmico que agora nós temos.

____Freire (1987) descreve o processo educativo como responsável pela tomada de

65 consciência, possibilitando ao educando inserir-se no processo histórico como sujeito. Nas

palavras de Freire, podemos vislumbrar a importância da escola e do seu papel de desnudar

a realidade aos educandos, para que possam ler e interpretar não somente os textos, mas a

vida; para que, assim, possam entender o momento atual, cuidando-se e discernindo as

verdades e mentiras que circulam pelo mundo. Penso que 2020 e, agora, 2021 querem trazer

70 à tona um novo paradigma humano: um sujeito que é protagonista, que tem as suas ideias,

que luta pela sobrevivência, que vê a realidade ao seu redor e que, de certa forma, quer e

pode transformá-la, a começar por pequenos gestos e ações que conseguem fazer em

defesa da vida.


TAKAHASHI, A. M. Disponível em: www.revistaponte.org. Acesso em: 04 abr. 2022 (adaptado)



“O atual contexto de pandemia em que estamos vivendo nos faz pensar sobre os impactos que tudo isso tem acarretado em nós docentes e discentes.” (linhas 1-2)


Os elementos destacados no fragmento acima apresentam a mesma classificação de


A

“Entre penhascos e abismos, procuramos uma ponte que nos mostrasse o caminho a seguir.” (linhas 2-3)


B

“Podemos dizer que a nossa meta de 2020 foi a de tentar sobreviver.” (linhas 3-4)


C

“De repente todas as nossas certezas se foram, roubaram a nossa rotina e tivemos que aceitar uma outra, imposta ‘goela abaixo’”. (linhas 4-6)


D

“A reação inicial é que professores e estudantes ficaram perplexos diante desse novo cenário que se apresentava”. (linhas 10-11)