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Texto IV
O GÊNERO DA DOCÊNCIA
Se as diferentes instituições e práticas sociais são constituídas pelos gêneros (e
também os constituem), isso significa que essas instituições e práticas não somente
“fabricam” os sujeitos como também são, elas próprias, produzidas (ou engendradas) por
representações de gênero, bem como por representações étnicas, sexuais, de classe, etc.
5 De certo modo poderíamos dizer que essas instituições têm gênero, classe, raça. Sendo
assim, qual o gênero da escola?
Ora, respondem imediatamente alguns/as, a escola é feminina, porque é,
primordialmente, um lugar de atuação de mulheres — elas organizam e ocupam o espaço,
elas são as professoras; a atividade escolar é marcada pelo cuidado, pela vigilância e pela
10 educação, tarefas tradicionalmente femininas. Além disso, os discursos pedagógicos (as
teorias, a legislação, a normalização) buscam demonstrar que as relações e as práticas
escolares devem se aproximar das relações familiares, devem estar embasadas em afeto e
confiança, devem conquistar a adesão e o engajamento dos/as estudantes em seu próprio
processo de formação. Em tais relações e práticas, a ação das agentes educativas deve
guardar, pois, semelhanças com a ação das mulheres no lar, como educadoras de crianças
ou adolescentes.
Ao contrário, dizem outras/os, a escola é masculina, pois ali se lida, fundamentalmente,
com o conhecimento — e esse conhecimento foi historicamente produzido pelos homens. A
escola não trata de qualquer conhecimento, ela lida, como afirma Jean-Claude Forquin
20 (1993, p. 11), com alguns aspectos da cultura que foram selecionados por serem
reconhecidos como podendo ou devendo dar lugar a uma transmissão deliberada e mais ou
menos institucionalizada"— enfim, aquilo que uma dada sociedade considera digno de
integrar o currículo. Portanto, é possível argumentar que, ainda que as agentes do ensino
possam ser mulheres, elas se ocupam de um universo marcadamente masculino — não
25 apenas porque as diferentes disciplinas escolares se construíram pela ótica dos homens,
mas porque a seleção, a produção e a transmissão dos conhecimentos (os programas, os
livros, as estatísticas, os mapas; as questões, as hipóteses e os métodos de investigação
"científicos" e válidos; a linguagem e a forma de apresentação dos saberes) são masculinos.
Difícil decidir qual a resposta mais adequada ou mais completa. Ambas as
30 argumentações apelam para noções com as quais usualmente concordamos e que
reconhecemos nas nossas práticas escolares. O que fica evidente, sem dúvida, é que a
escola é atravessada pelos gêneros; é impossível pensar sobre a instituição sem que se
lance mão das reflexões sobre as construções sociais e culturais de masculino e feminino.
Na verdade isso pode ser estendido para qualquer instituição social. No entanto, nosso
35 olhar se volta especialmente para a escola não apenas devido à temática deste livro, mas
porque, nas sociedades urbanas, historicamente ela veio ganhando um lugar especial dentre
as demais instâncias e instituições sociais. Alvo de atenção dos religiosos, dos estados e
das famílias, ela foi se constituindo como necessária para formação de meninos e meninas,
ao mesmo tempo em que deslocava a importância de outros espaços formadores. À escola
40 foi atribuída, em diferentes momentos, a produção do cristão; do cidadão responsável; dos
homens e das mulheres virtuosos/as; das elites condutoras; do povo sadio e operoso; etc.
Certamente não se esperava que ela desempenhasse sozinha essas tarefas, embora, com
muita frequência, elas lhe fossem explícita e pontualmente endereçadas.
OURO, G. L. Gênero, sexualidade e educação: uma perspectiva pós-estruturalista. Petrópolis: Vozes, 2017. p. 88-90.
"De certo modo poderíamos dizer que essas instituições têm gênero, classe, raça.” (linha 5)
A alternativa em que o elemento destacado pode ser classificado do mesmo modo que no trecho acima é
“alguns aspectos da cultura que foram selecionados por serem reconhecidos como podendo ou devendo dar lugar a uma transmissão deliberada e mais ou menos institucionalizada” (linhas 20-22)
“Portanto, é possível argumentar que, ainda que as agentes do ensino possam ser mulheres, elas se ocupam de um universo marcadamente masculino” (linhas 23-24).
“é impossível pensar sobre a instituição sem que se lance mão das reflexões sobre as construções sociais e culturais de masculino e feminino” (linhas 32-33).
“Certamente não se esperava que ela desempenhasse sozinha essas tarefas, embora, com muita frequência, elas lhe fossem explícita e pontualmente endereçadas” (linhas 42-43).