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Texto para os itens de 1 a 20.
1 ____ Se os senhores algum dia quiserem encontrar um representante da grande nação brasileira, não o procurem
nunca na sua residência. Seja a que hora for, de manhã, ao amanhecer mesmo, à hora do jantar, quando quiserem enfim,
se o procurarem, o criado há de dizer-lhes secamente: Não está. Falo-lhes de experiência própria, porque, durante as
4 inúmeras vezes, a toda a hora do dia, em que fui ao Hotel Términus procurar o Deputado Castro, apalpando a carta do
coronel, tive o desprazer de ouvir estas duas palavras do porteiro indiferente. Nas últimas vezes, antes mesmo de acabar
a pergunta, já o homenzinho respondia invariavelmente da mesma desesperada forma negativa.
7 ____ É bem fácil de imaginar com que sorte de cogitações eu ia passando esses dias. O meu dinheiro dentro em breve,
pago o hotel, ficaria reduzido a alguns mil-réis insignificantes. Não conhecia ninguém, não tinha a mínima relação que me
pudesse socorrer, dar-me qualquer coisa, casa ao menos, até que me arranjasse. Saíra de meus penates, cheio de
10 entusiasmo, certo de que aquela carta, mal fosse apresentada, me daria uma situação qualquer. Era essa a minha
convicção, dos meus e do próprio coronel. Tinha-se lá, por aquelas alturas, em grande conta a força do doutor Castro nas
decisões dos governantes e a influência do velho fazendeiro sobre o ânimo do deputado.
13 ___ Não era ele o seu grande eleitor? Não era ele o seu banqueiro para os efeitos eleitorais? E nós, lá na roça, tínhamos
quase a convicção de que o verdadeiro deputado era o coronel e o doutor Castro um simples preposto seu. As minhas idas
e vindas ao hotel repetiam-se e não o encontrava. Vinham-me então os terrores sombrios da falta de dinheiro, da falta
16 absoluta. Voltava para o hotel taciturno, preocupado, cortado de angústias. Sentia-me só, só naquele grande e imenso
formigueiro humano, só, sem parentes, sem amigos, sem conhecidos que uma desgraça pudesse fazer amigos. Os meus
únicos amigos eram aquelas notas sujas encardidas; eram elas o meu único apoio; eram elas que me evitavam as
19 humilhações, os sofrimentos, os insultos de toda a sorte; e quando eu trocava uma delas, quando as dava ao condutor do
bonde, ao homem do café, era como se perdesse um amigo, era como se me separasse de uma pessoa bem amada...
Eu nunca compreendi tanto a avareza como naqueles dias em que dei alma ao dinheiro, e o senti tão forte para os
22 elementos da nossa felicidade externa ou interna...
A minha ignorância de viver e falta de experiência quase deixavam transparecer a natureza das minhas
preocupações. O gerente do hotel pareceu-me que as farejava. De quando em quando, procurava na conversação
25 amedrontar-me com o seu poderio, proveniente de estreitas relações que mantinha com as autoridades. Assim entendi
ser o sentido das anedotas que contava. Uma vez — narrou ele — depois de uma longa hospedagem, um hóspede quisera
furtar-se ao pagamento. Não tivera dúvidas, fora ao delegado auxiliar, um seu amigo, o doutor Felício, contara-lhe o caso
28 e o homem teve que pagar, se quis tirar as malas. Com ele, era assim; não dormia. Nada de justiça, de
pretorias... Qual! Com a polícia a coisa vai mais depressa, a questão é ter amigos bons e ele tinha-os excelentes; e, em
seguida, interrogando-me diretamente: O senhor não viu, ontem, aquele homem gordo que jantou na cabeceira? É o
31 escrivão da “X”. Os escrivães, fique o senhor sabendo, é que são as verdadeiras autoridades. Os delegados não fazem senão
o que eles querem; tecem os pauzinhos e... E o italiano rematou com um olhar canalha aquela sua informação sobre a
onipotência dos escrivães.
Lima Barreto. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. São Paulo: Ática, 1995.
Internet: <http://www.dominiopublico.gov.br/> (com adaptações).
A respeito dos aspectos gramaticais e dos sentidos do texto apresentado, julgue os itens de 9 a 20.
Na linha 27, o sujeito de “contara-lhe” é “um seu amigo”.
Certo
Errado