Leia atentamente o texto a seguir para responder às questões de 01 a 20.
Crítico de cinema? Mas isso é uma profissão?
- O francês Jean-Michel Frodon contou que, um dia, um taxista lhe
- perguntou sua profissão. “Sou crítico de cinema”, respondeu. “Mas isso é uma
- profissão?”, questionou o taxista.
- Frodon, um dos mais respeitados críticos de cinema da França, abriu
- nesta sexta-feira (10 de junho), no Rio de Janeiro, a programação do Festival
- Varilux de Cinema Francês, que terá programação em 50 cidades, com uma
- master class sobre o seu ofício. Tive o prazer de estar na plateia, junto com
- alguns dos mais conhecidos críticos do Brasil e entusiastas da sétima arte, e
- acompanhamos atentamente sua “aula de mestre”. Foi lição em cima de lição. O
- francês, que foi diretor de redação da revista Cahiers du Cinéma de 2003 a 2009
- e é autor de diversos livros sobre cinema, foi inspirador. Lembrou que, a cada
- semana, quando novos filmes são lançados, são as pessoas que escrevem
- sobre eles as responsáveis por dar “respeitabilidade artística” àquela obra. “O
- filme, porém, vai além do fato de o crítico ter amado, odiado ou falado besteira
- sobre um filme. Porque os críticos falam besteiras também…”
- Frodon destaca que a crítica tem que se parecer com “um convite” para
- que se explore algo novo. “Escrevemos para quem vai ver um filme ou para quem
- já viu? Isso não tem a menor importância.” O que tem importância, para Frodon,
- é não deixar que um filme se transforme em um produto. Ou seja, dar estrelinha,
- coração ou carinha de bravo para definir se um filme é ou não é bom.
- Na plateia, nesse momento, foi interessante observar alguns críticos do
- jornal O Globo, famoso por sua cotação “O Bonequinho…” Para quem não está
- familiarizado, as cotações variam de “O Bonequinho aplaudiu de pé” a “O
- Bonequinho saiu da sala”, com algumas variantes no meio do caminho. “Na
- prática, pode ser útil para ajudar o leitor a escolher por este ou aquele filme, mas
- essa não é a razão de ser da crítica.”
- Transformar um filme em produto “suprime a dimensão mais importante
- do filme, que é a possibilidade dele ser tratado com uma obra de arte”, destacou.
- “Um filme pode ser lazer, diversão, retratar um fenômeno social, dar medo, ser
- um objeto de pesquisa, nos levar a outros planetas… Muitos são bonitos,
- agradáveis, mas são objetos acabados, que não cumprem a promessa de se
- tornarem uma obra de arte, enquanto outros sim, se diferenciam como obra de
- arte.”
- Para Frodon, muitos filmes acabam sendo como “papel de parede,
- somente decorativos”, e o papel do crítico, na sua literatura, é explicar ao leitor
- porque aquele filme descumpre a promessa de ser uma obra de arte. “Cinema é
- muito mais que a história, os atores de quem gostamos, os efeitos especiais…”
- A França, que tem 350 festivais de cinema por ano (!), é o berço da crítica
- desde que Diderot resolveu escrever sobre pintura na segunda metade do século
- 18. No cinema, o Festival de Cannes é o auge de qualquer crítico e Frodon já
- participou de muitos. “Quando começo uma crítica não sei o que vou escrever”,
- admite o crítico, que mostra o caderninho no qual faz anotações durante o filme,
- mas que diz não levar em conta. “Fazer anotações significa que não sou um
- espectador normal, anoto, mas não releio, afinal, é difícil reler o que a gente
- escreve no escuro”, diverte-se.
- Frodon diz que gosta quando lê uma crítica que defende um filme do qual
- não gostou. “É como entrar em uma outra emoção. Porque uma crítica é algo
- pessoal, nós nos expomos, nos exibimos ali naquelas palavras que tentam
- transmitir ideias que possam ser compartilhadas. Ser crítico é tentar ser um
- escritor.”
- Para Frodon, a chegada da internet, que deu voz a uma legião de críticos
- sem espaço nas grandes mídias, “abre novas possibilidades”. “Um filme existe
- para que se fale dele, o cinema leva as pessoas a falarem, antes falávamos entre
- nós, agora podemos falar com todo o mundo”, resume. “É direito absoluto de
- todos poder falar dos filmes.”
- “Às vezes, inclusive, me deparo com críticas na internet que são muito
- melhores, muito mais elaboradas, do que as que estão nas páginas dos jornais
- e das revistas”, completa. O francês cita um conterrâneo, André Bazin, um dos
- fundadores da revista Cahiers du Cinéma, que dizia que “todos os filmes nascem
- livres e iguais em direito”, para um choque de realidade. “O que o Bazin dizia é
- uma utopia. Sabemos que não é verdade, há os filmes ricos e poderosos e os
- filmes pobres e desconhecidos.”
- Frodon lamenta que, em um mundo com tantos e tantos filmes para ver,
- o poder do marketing seja tão dominante. “Quanto mais filmes podemos ver,
- mais vemos os mesmos filmes.”
Daniela Prandi
Disponível em http://asn.blog.br/2016/06/11/critico-de-cinema-mas-isso-e-uma-profissao/
Acessado em 6/12/2021
Texto adaptado