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O Gigolô das Palavras
01 ____ Quatro ou cinco grupos diferentes de alunos do Farroupilha estiveram lá em casa numa mesma missão,
02 designada por seu professor de Português: saber se eu considerava o estudo da gramática indispensável para
03 aprender e usar a nossa ou qualquer outra língua. [...]
04 ____ Respondi que a linguagem, qualquer linguagem, é um meio de comunicação e que deve ser julgada
05 exclusivamente como tal. Respeitadas algumas regras básicas da gramática, para evitar os vexames mais
06 gritantes, as outras são dispensáveis. A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios. Escrever bem é
07 escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer "escrever claro" não é certo mas é claro, certo?
08 O importante é comunicar. (E quando possível surpreender, iluminar, divertir, mover... Mas aí entramos na
09 área do talento, que também não tem nada a ver com gramática.) A gramática é o esqueleto da língua. Só
10 predomina nas línguas mortas, e aí é de interesse restrito a necrólogos e professores de latim, gente em geral
11 pouco comunicativa. Aquela sombria gravidade que a gente nota nas fotografias em grupo dos membros da
12 Academia Brasileira de Letras é de reprovação pelo Português ainda estar vivo. Eles só estão esperando,
13 fardados, que o Português morra para poderem carregar o caixão e escrever sua autópsia definitiva. É o
14 esqueleto que nos traz de pé, certo, mas ele não informa nada, como a gramática é a estrutura da língua, mas
15 sozinha não diz nada, não tem futuro. As múmias conversam entre si em gramática pura.
16 ____ Claro que eu não disse isso tudo para meus entrevistadores. E adverti que minha implicância com a
17 gramática na certa se devia à minha pouca intimidade com ela. Sempre fui péssimo em Português. Mas – isso
18 eu disse – vejam vocês, a intimidade com a gramática é tão indispensável que eu ganho a vida escrevendo,
19 apesar da minha total inocência na matéria. Sou um gigolô das palavras. Vivo às suas custas. E tenho com elas
20 exemplar conduta de um cáften profissional. Abuso delas. Só uso as que eu conheço, as desconhecidas são
21 perigosas e potencialmente traiçoeiras. Exijo submissão. Não raro, peço delas flexões inomináveis para
22 satisfazer um gosto passageiro. Maltrato-as, sem dúvida. E jamais me deixo dominar por elas. Não me meto na
23 sua vida particular. Não me interessa seu passado, suas origens, sua família nem o que outros já fizeram com
24 elas. Se bem que não tenho também o mínimo escrúpulo em roubá-las de outro, quando acho que vou ganhar
25 com isto. As palavras, afinal, vivem na boca do povo. São faladíssimas. Algumas são de baixíssimo calão. Não
26 merecem o mínimo respeito.
27 ____ Um escritor que passasse a respeitar a intimidade gramatical das suas palavras seria tão ineficiente
28 quanto um gigolô que se apaixonasse pelo seu plantel. Acabaria tratando-as com a deferência de um
29 namorado ou com a tediosa formalidade de um marido. A palavra seria a sua patroa! Com que cuidados, com
30 que temores e obséquios ele consentiria em sair com elas em público, alvo da impiedosa atenção dos
31 lexicógrafos, etimologistas e colegas. Acabaria impotente, incapaz de uma conjunção. A gramática precisa
32 apanhar todos os dias pra saber quem é que manda.
VERÍSSIMO, L. F. In OLIVEIRA, J. et alii. Análise estilística do texto “Gigolô das Palavras”, de Luís Fernando Veríssimo. Soletras, ano VII, n. 14. São Gonçalo: UERJ, jul/dez 2007, p. 94-95.
Entre as práticas de análise linguística, os PCN (BRASIL, 1998, p. 60-61) elencam, por exemplo, a “Comparação dos fenômenos lingüísticos observados na fala e na escrita nas diferentes variedades, privilegiando os seguintes domínios: [...] predominância da parataxe e da coordenação sobre as estruturas de subordinação”; quanto ao texto em análise, Veríssimo privilegia as estruturas paratáticas, sobretudo no terceiro parágrafo. Considerando este fragmento textual “Abuso delas. Só uso as que eu conheço, as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras” (l. 20 e 21), se fosse pedido ao aluno do último ciclo do ensino fundamental que utilizasse elementos de coesão coordenativos e subordinativos, a fim de ligar os sintagmas oracionais desse trecho, mantendo, estritamente, os elos semânticos entre tais sintagmas, esse aluno deveria apresentar qual período complexo como resposta?
Abuso delas, ou só uso as que eu conheço, entretanto as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras.
Abuso delas, pois só uso as que eu conheço, quando as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras.
Abuso delas, mas só uso as que eu conheço, porque as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras.
Abuso delas, logo só uso as que eu conheço, se as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras.