Para responder às questões de 01 a 10, leia o texto abaixo.
A última crônica
- A caminho de casa, entro num botequim da
- Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na
- realidade estou adiando o momento de escrever. A
- perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado,
- de coroar com êxito mais um ano nesta busca do
- pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu
- pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu
- disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que
- a faz mais digna de ser vivida. Visava ao
- O circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do
- acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas
- palavras de uma criança ou num acidente doméstico,
- torno-me simples espectador e perco a noção do
- essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça
- e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete
- na lembrança: "assim eu quereria o meu último
- poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço
- então um último olhar fora de mim, onde vivem os
- assuntos que merecem uma crônica.
- Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba
- de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao
- longo da parede de espelhos. A compostura da
- humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-
- se acrescentar pela presença de uma negrinha de
- seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no
- vestido pobre, que se instalou também _ mesa: mal
- ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos
- grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos
- que compõem em torno à mesa a instituição tradicional
- da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se
- preparam para algo mais que matar a fome.
- Passo a observá-los. O pai, depois de contar o
- dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o
- garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta
- no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe
- limita-se _ ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa,
- como se aguardasse a aprovação do garçom Este
- ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se
- afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para
- os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua
- presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem
- do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção
- do bolo com a mão, larga-o no pratinho - um bolo
- simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia
- triangular.
- A negrinha, contida na sua expectativa, olha a
- garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom
- deixou à sua frente. Por que não começa a comer?
- Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em tomo
- à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de
- plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai
- se mune de uma caixa de fósforos. e espera. A filha
- aguarda também, atenta como um animalzinho.
- Ninguém mais os observa além de mim.
- São três velinhas brancas, minúsculas que a mãe
- espeta caprichosamente na fatia do bolo E enquanto
- ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende
- as velas. Como _ um gesto ensaiado, a menininha
- repousa o queixo no mármore e sopra com força,
- apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater
- palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio,
- a que os pais se juntam, discretos: "Parabéns pra você,
- parabéns pra você ... ". Depois a mãe recolhe as velas,
- torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra
- finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se
- a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura
- - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de
- bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo
- botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente
- do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a
- observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba,
- constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas
- acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.
- Assim eu quereria minha última crônica: que fosse
- pura como esse sorriso.
Autor: Fernando Sabino (adaptado)