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Em A perspectiva me assusta (l.3-4), tem-se:

Para responder às questões de 01 a 10, leia o texto abaixo.


A última crônica

  1. A caminho de casa, entro num botequim da
  2. Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na
  3. realidade estou adiando o momento de escrever. A
  4. perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado,
  5. de coroar com êxito mais um ano nesta busca do
  6. pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu
  7. pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu
  8. disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que
  9. a faz mais digna de ser vivida. Visava ao
  10. O circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do
  11. acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas
  12. palavras de uma criança ou num acidente doméstico,
  13. torno-me simples espectador e perco a noção do
  14. essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça
  15. e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete
  16. na lembrança: "assim eu quereria o meu último
  17. poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço
  18. então um último olhar fora de mim, onde vivem os
  19. assuntos que merecem uma crônica.
  20. Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba
  21. de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao
  22. longo da parede de espelhos. A compostura da
  23. humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-
  24. se acrescentar pela presença de uma negrinha de
  25. seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no
  26. vestido pobre, que se instalou também _ mesa: mal
  27. ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos
  28. grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos
  29. que compõem em torno à mesa a instituição tradicional
  30. da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se
  31. preparam para algo mais que matar a fome.
  32. Passo a observá-los. O pai, depois de contar o
  33. dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o
  34. garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta
  35. no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe
  36. limita-se _ ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa,
  37. como se aguardasse a aprovação do garçom Este
  38. ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se
  39. afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para
  40. os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua
  41. presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem
  42. do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção
  43. do bolo com a mão, larga-o no pratinho - um bolo
  44. simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia
  45. triangular.
  46. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a
  47. garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom
  48. deixou à sua frente. Por que não começa a comer?
  49. Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em tomo
  50. à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de
  51. plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai
  52. se mune de uma caixa de fósforos. e espera. A filha
  53. aguarda também, atenta como um animalzinho.
  54. Ninguém mais os observa além de mim.
  55. São três velinhas brancas, minúsculas que a mãe
  56. espeta caprichosamente na fatia do bolo E enquanto
  57. ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende
  58. as velas. Como _ um gesto ensaiado, a menininha
  59. repousa o queixo no mármore e sopra com força,
  60. apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater
  61. palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio,
  62. a que os pais se juntam, discretos: "Parabéns pra você,
  63. parabéns pra você ... ". Depois a mãe recolhe as velas,
  64. torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra
  65. finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se
  66. a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura
  67. - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de
  68. bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo
  69. botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente
  70. do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a
  71. observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba,
  72. constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas
  73. acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.
  74. Assim eu quereria minha última crônica: que fosse
  75. pura como esse sorriso.

Autor: Fernando Sabino (adaptado)

Em A perspectiva me assusta (l.3-4), tem-se:


A

Sujeito desinencial.


B

Sujeito indeterminado.


C

Sujeito simples.


D

Sujeito composto.


E

Oração sem sujeito.