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"Recostou-se então no banco (...)", a partícula " se"...

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Amor


Clarice Lispector

Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde. Depositou o volume no colo e o bonde começou a andar. Recostou-se então no banco procurando conforto, num suspiro de meia satisfação.

Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, (...)

O bonde se arrastava, em seguida estacava. Até Humaitá tinha tempo de descansar. Foi então que olhou para o homem parado no ponto.(...)

(...) Era um cego.

(...) O bonde se sacudia nos trilhos e o cego mascando goma ficara atrás para sempre. Mas o mal estava feito. (...)

(...) E como uma estranha música, o mundo recomeçava ao redor. (...) A piedade a sufocava, Ana respirava pesadamente. (...)

O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada. (...) Um cego mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão. (...)

Só então percebeu que há muito passara do seu ponto de descida.(...)

(...) Andando um pouco mais ao longo de uma sebe, atravessou os portões do Jardim Botânico.(...)

Ao seu redor havia ruídos serenos, cheiro de árvores, pequenas surpresas entre os cipós.(...)

(...) A moral do Jardim era outra. Agora que o cego a guiara até ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas. (...)

(...) Um cego me levou ao pior de mim mesma, pensou espantada.(...)

(Texto extraído no livro "Laços de Família" Clarice Lispector.)

"Recostou-se então no banco (...)", a partícula " se" classifica-se:


A

como expletiva.


B

como pronome apassivador.


C

como índice de indeterminação do sujeito.


D

como pronome reflexivo.


E

como conjunção subordinativa condicional.