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No segundo parágrafo, exemplifica-se a citação, que é um...

Texto 1

O escritor-funcionário

Marco Antonio Rodrigues

“O birô marcou-me”.

(Cyro dos Anjos, A menina do sobrado)

Fosse definida não pelo que a constitui, mas

pelo que a contradiz, a literatura seria uma forma

de oposto, de negação à burocracia. Nos termos

de Antonio Candido (1987, p.163), a criação literária

5 tem como condição necessária uma carga de

liberdade extraordinária, que transcende as nossas

servidões. Por que andam tão juntas, então, a

literatura e a servidão burocrática? Talvez por uma

negar a outra e por se afirmarem mutuamente, por

10 contraste. Ou então por a criação ficcional estar

muitas vezes associada à experiência de vida dos

criadores, experiência esta frequentemente

vinculada ao trabalho burocrático nas repartições

públicas.

15 “Estou farto do lirismo comedido/ do lirismo

bem comportado/ Do lirismo funcionário público

com livro de ponto expediente protocolo e

manifestações de apreço ao Sr. diretor”, sintetiza

Manuel Bandeira, em sua famosa “Poética”. O

20 “lirismo funcionário público”, que normatiza,

formata e conforma a experiência, é o que o poeta

recusa e achincalha. A este se opõe “o lirismo dos

loucos/ O lirismo dos bêbedos/ O lirismo difícil e

pungente dos bêbedos/ O lirismo dos clowns de

25 Shakespeare”. E, no entanto, quantos de nossos

poetas e prosadores não teriam concebido e

rematado suas obras nos bureaus de alguma

repartição pública, escrevendo no verso de papel

timbrado? (...)

30 No caso específico do Brasil, o vínculo dos

escritores com o serviço público foi tão evidente, a

ponto de motivar um de seus mais ilustres

representantes, Carlos Drummond de Andrade, a

qualificar a literatura brasileira como uma “literatura

35 de funcionários públicos” (ANDRADE, 1952, p. 113).

Na crônica de nome sugestivo – “A rotina e a

quimera” – Drummond discute a má fama do

literato-funcionário, que desperdiçava o tempo

reservado aos interesses da nação no trato de

40 “quimeras pessoais”, e o status dessa figura no

contexto da sociedade brasileira. O atrativo da

condição funcionária estaria na mediania

socioeconômica que o literato encontra no serviço

público e que lhe possibilita exercer, sem grandes

45 percalços, a sua necessidade criadora. Protegido

pela organização burocrática, encontraria espaço

para criar e retribuir à sociedade com a sua criação.

Em defesa desses argumentos, Drummond

apresenta uma extensa lista de

50 literatos-funcionários, muitos dos quais de

lembrança hoje obscura, outros bem mais

conhecidos, como Gonçalves Dias, Raul Pompéia,

José Veríssimo, Aluízio Azevedo, Olavo Bilac,

Alberto de Oliveira, Gonzaga Duque e Lima

55 Barreto. A lista exemplificaria, ainda que de

improviso, o que as letras nacionais devem à

burocracia, e como esta se engrandece com

aquelas. (ANDRADE, 1952, p. 113 – 114)

Fonte: Rodrigues, Marco Antonio. Contos da vida burocrática: o funcionário público na narrativa curta de ficção brasileira. 2015. Tese (Doutorado em Literatura Brasileira). Instituto de Letras, Universidade de Brasília, Brasília. p.31-32 Disponível em: https://repositorio.unb.br/bitstream/10482/22054/1/2015_ MarcoAntonioRodrigues.pdf. Acesso em: 29 fev. 2020.

No segundo parágrafo, exemplifica-se a citação, que é um dos recursos textuais característicos:


A

do ato injuntivo.


B

do discurso interlocutivo.


C

da função metalinguística.


D

da heterogeneidade enunciativa.


E

da situação comunicativa.