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“O certo é que um e outro são inseparáveis, ou antes, este...

Texto 2

A rotina e a quimera

Carlos Drummond de Andrade (1948)

Sempre se falou mal de funcionários,

inclusive dos que passam a hora do expediente

escrevendo literatura. Não sei se esse tipo de

burocrata-escritor existe ainda. A racionalização

5 do serviço público, ou o esforço por essa

racionalização, trouxe modificações sensíveis

ao ambiente de nossas repartições, e é de crer

que as vocações literárias manifestadas à

sombra de processos se hajam ressentido

10 desses novos métodos de trabalho. Sem

embargo, não se terão estiolado de todo, tão

forte é, no escritor, a necessidade de

exprimir-se, dentro ou fora da rotina que lhe é

imposta. Se não escrever no espaço de tempo

15 destinado à produção de ofícios, escreverá na

hora do sono ou da comida, escreverá debaixo

do chuveiro, na fila, ao sol, escreverá até sem

papel – no interior do próprio cérebro, como

poetas prisioneiros da última guerra, que

20 voltaram ao soneto como uma forma que por si

mesma grava na memória.

O certo é que um e outro são

inseparáveis, ou antes, este determina aquele.

O emprego do Estado concede com que viver

25 de ordinário sem folga, e essa é condição ideal

para bom número de espíritos: certa mediania

que elimina os cuidados imediatos, porém não

abre perspectiva de ócio absoluto. O indivíduo

tem apenas a calma necessária para refletir na

30 mediocridade de uma vida que não conhece a

fome e nem o fausto: sente o peso dos

regulamentos, que lhe compete observar ou

fazer observar; o papel barra-lhe a vista dos

objetos naturais, como uma cortina parda. É

35 então que intervém a imaginação criadora, para

fazer desse papel precisamente o veículo de

fuga, sorte de tapete mágico, em que o

funcionário embarca, arrebatando consigo a

doce ou amarga invenção, que irá maravilhar

40 outros indivíduos, igualmente prisioneiros de

outras rotinas, por este vasto mundo de

obrigações não escolhidas.

Disponível em: https://sibila.com.br/critica/a-rotina-e-a-quimera-quase-toda-literatura-brasileira-e-literatura-de-funcionarios-publicos/10677. Acesso em: 29 fev. 2020. Fragmento.

“O certo é que um e outro são inseparáveis, ou antes, este determina aquele.” Os termos sublinhados se referem, respectivamente, a:


A

rotina, quimera, rotina, quimera.


B

serviço público, quimera, quimera, serviço público.


C

serviço público, escritor, burocrata, serviço público.


D

rotina, quimera, escritor, burocrata.


E

burocrata, escritor, escritor, burocrata.