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Como recurso expressivo, a autora vale-se da repetição das...

LEIA O TEXTO ABAIXO PARA RESPONDER ÀS QUESTÕES DE 1 A 10.


A Perca


  1. Da série “só acontece comigo”: estava parada num sinal da Avenida Ipiranga quando
  2. um carro encostou ao lado do meu. A motorista abriu a janela e pediu para eu abrir a
  3. minha. Era uma moça simpática que me perguntou:
  4. – Martha, o certo é dizer perda ou perca?
  5. – Hãn?
  6. – É perda de tempo ou perca de tempo? Como se diz?
  7. A pergunta era tão inusitada para a hora e o local, tão surpreendente, vinda de
  8. alguém que eu não conhecia, que me deu um branco: por um milésimo de segundo eu não
  9. soube o que responder. Perca de tempo, isso existe? Então o sinal abriu, os carros da frente
  10. começaram a engatar a primeira, eu olhei para ela e disse:
  11. – É perda de tempo.
  12. Ela sorriu em agradecimento e foi em frente. Meu carro ainda ficou um tempo parado. Eu
  13. parada no tempo. Perca de tempo.
  14. Dei uma risada e segui meu rumo também.
  15. Se alguém te diz “não perca tempo”, e todos te dizem isso o tempo todo, como não
  16. confundir? Tantos confundem. São coagidos a tal.
  17. E, cá entre nós, a “perca” parece mais amena do que a “perda”.
  18. A perca de um amor é quase tão corriqueira como a perca do capítulo da novela. A perca
  19. é feira livre. A perca é festiva. A perca é música popular.
  20. Já a perda é sinfonia de Beethoven.
  21. A perca acontece no verão. A perca de uma cadeirinha de praia, a perca de um palito
  22. premiado de picolé.
  23. As perdas acontecem no inverno.
  24. A perca é simplória, a perca é distraída, a perca é provisória, logo, logo reencontrarão o
  25. que está faltando.
  26. A perda é para sempre.
  27. As percas reinventam o vocabulário e seu sentido, não são graves, as percas são
  28. imperfeições perdoáveis, as percas são inocentes.
  29. As perdas são catastróficas, nada têm de folclóricas.
  30. A perca é um erro gramatical, e apenas esse erro ela contém. De resto, não faz mal a
  31. ninguém.
  32. A perda é um acerto gramatical, mas só esse acerto ela contém. De resto, é brutal.
  33. Se eu pudesse voltar no tempo, reconstituiria a cena de outra forma:
  34. – Martha, é perda de tempo ou perca de tempo? Como é que se diz?
  35. – O correto é dizer perda, mas é muito solene. Perca dói menos por ser mais trivial.


MEDEIROS, Martha. Feliz por nada. Porto Alegre - RS: L&PM, 2014, p. 191-192.

Como recurso expressivo, a autora vale-se da repetição das palavras “perca” e “perda”, no início de vários parágrafos sucessivos, para enfatizar a distinção entre elas. Trata-se da figura de linguagem denominada


A

anáfora.


B

perífrase.


C

aliteração.


D

polissíndeto.