Imagem de fundo

Quanto ao emprego do sinal indicativo de crase, marque o...

1
Q2523641
Teclas de Atalhos
Compartilhar
Ano: 2022
Banca: Instituto Municipal de Desenvolvimento de Recursos Humanos - IMPARH
Prova: IMPARH - Prefeitura de Fortaleza - Professor - Área: Língua Portuguesa - 2022

Texto 1


Os conteúdos curriculares na perspectiva social dos usos da escrita


  1. Assumir o letramento como objetivo do ensino no contexto dos ciclos escolares implica adotar uma concepção
  2. social da escrita, em contraste com uma concepção de cunho tradicional que considera a aprendizagem de leitura e produção
  3. textual como a aprendizagem de competências e habilidades individuais. A diferença entre ensinar uma prática e ensinar para
  4. que o aluno desenvolva individualmente uma competência ou habilidade não é mera questão terminológica. Em instituições
  5. como a escola, em que predomina a concepção da leitura e da escrita como conjunto de competências, concebe-se a
  6. atividade de ler e escrever como um conjunto de habilidades progressivamente desenvolvidas, até se chegar a uma
  7. competência leitora e escritora ideal, a do usuário proficiente da língua escrita. Os estudos do letramento, por outro lado,
  8. partem de uma concepção de leitura e de escrita como práticas discursivas, com múltiplas funções e inseparáveis dos
  9. contextos em que se desenvolvem.
  10. Na perspectiva social da escrita que vimos discutindo, uma situação comunicativa que envolve atividades que usam
  11. ou pressupõem o uso da língua escrita – um evento de letramento – não se diferencia de outras situações da vida social:
  12. envolve uma atividade coletiva, com vários participantes que têm diferentes saberes e os mobilizam (em geral
  13. cooperativamente) segundo interesses, intenções e objetivos individuais e metas comuns. Contrasta essa concepção com a
  14. que subjaz as práticas de uso da escrita dentro da escola que, em geral, envolvem à demonstração da capacidade do
  15. indivíduo para realizar todos os aspectos de determinados eventos de letramento escolar, sejam eles soletrar, ler em voz alta,
  16. responder perguntas oralmente ou por escrito, escrever uma redação, fazer um ditado, analisar uma oração, fazer uma
  17. pesquisa. Daí não serem raros os relatos de atividades escolares que envolvem escrever uma carta de reclamação ou
  18. reivindicação a alguma autoridade, na qual cada um dos alunos, individualmente, faz a sua própria carta, em vez de unirem os
  19. esforços para produzirem coletivamente uma carta assinada por todos os membros da turma ou um abaixo-assinado da
  20. comunidade (escola, bairro, cidade) a que pertence a turma. Isso porque, mesmo focando um problema relevante para a
  21. cidadania e para a vida cívica, não era a resolução do problema – conseguir que o governo atendesse à reivindicação – o
  22. objetivo da atividade, mas, simplesmente, a aprendizagem do gênero carta argumentativa ou reivindicatória.
  23. A prática social como ponto de partida e de chegada implica, por sua vez, uma pergunta estruturante do
  24. planejamento das aulas diferente da tradicional, que está centrada nos conteúdos curriculares: “qual a sequência mais
  25. adequada de apresentação dos conteúdos?”. A importância dos conteúdos para a formação do professor não pode ser
  26. suficientemente enfatizada. Entretanto, o conteúdo é alvo: ele representa os comportamentos, procedimentos, conceitos
  27. que se visa desenvolver no aluno. Não deve ser entendido, parece-me, como princípio organizador das atividades
  28. curriculares. Vejamos por quê.
  29. Nos primeiros anos do primeiro ciclo do ensino fundamental, visa-se apresentar ao aprendiz todos os aspectos do
  30. sistema ortográfico da língua e serão os diversos aspectos desse sistema os conteúdos a serem ensinados. Isso não significa,
  31. entretanto, que o professor deva planejar suas aulas de modo a apresentar primeiro o alfabeto, logo as sílabas abertas (ba be
  32. bi), depois os encontros consonantais (bra bre) e as sílabas fechadas (bar ber) e assim sucessivamente, com base num
  33. roteiro de apresentação dos diversos elementos desse sistema, desde as sílabas tidas como mais simples e as regularidades
  34. até as “dificuldades ortográficas” da tradicional cartilha (que todo professor conhece).
  35. Nesse ciclo, os conteúdos correspondem, basicamente, ao conjunto de saberes e conhecimentos requeridos em
  36. práticas sociais letradas como as de medição, cálculos de volume, elaboração de maquetes, mapas e plantas (conteúdos
  37. matemáticos) e àqueles necessários para a participação em práticas discursivas de leitura e produção de textos de diversos
  38. gêneros. Para poder ler e escrever, o aluno precisa reconhecer e usar componentes relativos ao domínio do código, como a
  39. segmentação em palavras e frases, as correspondências regulares de som-letra, as regras ortográficas, o uso de maiúsculas,
  40. assim como componentes relativos ao domínio textual, tais como o conjunto de recursos coesivos de conexão, de relação
  41. temporal, de relação causal. Nada disso seria relevante se o aluno não conseguisse também atribuir sentidos aos textos que
  42. lê e escreve segundo os parâmetros da situação comunicativa.
  43. Porém, em toda situação comunicativa que envolve o uso da língua escrita – em todo evento de letramento – há a
  44. necessidade de tudo isso e, portanto, SEMPRE surge a oportunidade para o professor focalizar de forma sistemática algum
  45. conteúdo, ou seja, de apresentar materiais para o aluno chegar à perceber uma regularidade, praticar repetidas vezes um
  46. procedimento, buscar uma explicação. Nesse caso, o movimento será da prática social para o ‘conteúdo’ (procedimento,
  47. comportamento, conceito) a ser mobilizado para poder participar da situação, nunca o contrário, se o letramento do aluno
  48. for o objetivo estruturante do ensino.
  49. Quando o conteúdo (qualquer que seja) não constitui o elemento estruturante do currículo, a pergunta que orienta
  50. o planejamento das atividades didáticas deixa de ser “qual é a sequência mais adequada de apresentação dos conteúdos
  51. linguísticos, textuais ou enunciativos?” porque o professor, com conhecimento pleno dos conteúdos do ciclo e ciente de sua
  52. importância no processo escolar, passa então a fazer uma pergunta de ordem sócio-histórica e cultural: “quais os textos
  53. significativos para o aluno e sua comunidade?”.
  54. Aliás, no ensino da leitura e da produção de textos representativos de determinada prática social, a facilidade e a
  55. dificuldade de aprendizagem não dependem apenas da relação letra-som, ou da presença ou ausência de dígrafos, encontros
  56. consonantais e outras “dificuldades ortográficas”, ou da presença de elementos coesivos mais, ou menos conhecidos do
  57. aluno. Dependem, sobretudo, do grau de familiaridade do aluno com os textos pertencentes aos gêneros mobilizados para
  58. comunicar-se em eventos que pressupõem essa prática. As letras, sílabas, palavras e frases não são unidades perceptíveis
  59. quando o sistema passa a ser ensinado a partir de elementos salientes, tanto verbais como não verbais, que se destacam nos
  60. textos (manchetes, títulos, ilustrações).
  61. Nessa perspectiva, os elementos pontuais “mais difíceis”, ensinados tardiamente na progressão tradicional, podem
  62. aparecer em qualquer etapa do processo, desde que sejam aprendidos dentro de um contexto significativo. O dígrafo e o
  63. ditongo na palavra “dinossauro”, por exemplo, não são os elementos que vão impedir uma criança de desenvolver uma
  64. pesquisa escolar sobre esse animal se essa criança estiver de fato interessada e a atividade bem orientada.
  65. O relato de experiência de Guimarães, em que crianças de quinta série foram paulatinamente aproximando-se do
  66. gênero resenha, também aponta para a pertinência da abordagem do letramento de atentar para a prática social relevante
  67. para o aluno nos últimos ciclos do ensino fundamental como objetivo estruturante das atividades curriculares.
  68. Na experiência citada, é claro que era o gênero resenha o objetivo conteudístico do ensino, mas era a prática
  69. social, própria da instituição escolar – recomendar livros para os colegas da turma – o eixo estruturante das atividades.
  70. Tivesse sido o gênero resenha o elemento estruturante, os alunos talvez fossem submetidos à aulas sobre o gênero, com
  71. sequências explicativas e demonstrações sobre como abordar os temas, que tipo de linguagem utilizar, como estruturar o
  72. texto, quais os elementos composicionais constitutivos desse gênero. Em vez disso, os alunos foram experimentando com
  73. base nos gêneros que já conheciam e, aos poucos, foram inferindo os elementos relevantes para escrever seus textos,
  74. apoiando-se nas práticas de ler livros, recomendá-los ou criticá-los (informalmente) para um público conhecido, ouvir e ler
  75. comentários críticos de seus colegas, ler resenhas publicadas, revisar seus textos, reescrevê-los com base nos comentários
  76. dos colegas e, sobretudo, da professora, que certamente tinha em mente, para guiá-los nesse processo, o conteúdo visado.


(KLEIMAN, A. B. Letramento e suas implicações para o ensino de Língua materna. Signo. Santa Cruz do Sul, v. 32 n. 53, p. 4-8, dez, 2007 – com adaptações).

Quanto ao emprego do sinal indicativo de crase, marque o único item correto.


A

“Contrasta essa concepção com a que subjaz as práticas de uso da escrita dentro da escola que, em geral, envolvem à demonstração da capacidade [...]” (linhas 13-14).


B

“[...] conseguir que o governo atendesse à reivindicação – o objetivo da atividade, mas, simplesmente, a aprendizagem do gênero carta argumentativa ou reivindicatória.” (linhas 21-22).


C

“[...] apresentar materiais para o aluno chegar à perceber uma regularidade, praticar repetidas vezes um procedimento, buscar uma explicação.” (linhas 45-46).


D

“[...] os alunos talvez fossem submetidos à aulas sobre o gênero, com sequências explicativas e demonstrações sobre como abordar os temas”. (linhas 70-71).