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TERESINA
Vejo-me sem minha infância, sem os dias queridos que não voltam mais, as saudades provocando nó na garganta, um choro que não consola. Sem a Cain’água, o cabaré das garotas de segunda classe, perto do Parnaíba, que os meus olhos de adolescentes desejavam, mas os cânones da época proibiam. Sem os circos, na Praça Deodoro, grandões, palhaços engraçados, ameaçando as velhotas atiradas com o troncudo pedaço de macaxeira. Na frente do imenso toldo, dezenas de bancas, na venda de frutas descascadas, refresco, sorvete de gelo raspado e mel de fruta, gostoso como o diabo, frito de carne de porco, beiju salpicado de farelo de coco. No calor das tardes, máquinas equilibradas na rodinha da cabeça, com a manivela de rodar e fabricar o melhor sorvete do mundo, o caboclo, alpargata chiadeira, passeava as ruas, a vender a guloseima.
Vejo-me sem o pega-pinto gelado, que a gente ia comprar, oito da noite, na jarra, uns oito copos, para a família à espera da roda da calçada. Sem o Doutor, dono de frege, estabelecimento modesto, mesinhas sem folhas, pimenta malagueta danada, cachorros gafentos e famintos à espera do osso que o freguês alisara, depois de engolir tripa e bucho – a panelada da cidade, a cinquenta metros da praça Rio Branco. Sem o Bar Carvalho, de elite, vendia cafezinho, chocolate com ovo e sem ele, sobretudo o filé de grelha, enfeitado de ervilha, azeitona, alface e farofa. Manjar dos deuses, do cozinheiro espanhol Gumercindo, um mágico em comedorias.
Vejo-a sem o alarido das pipiras tentadoras – as mocinhas pobres empregadas da companhia de Fiação e Tecidos piauiense, ruído de máquinas o dia todo. As garotas, vestidinhas de chita, merendavam banana, daí o apelido que a crônica registra.
Hoje, vejo-a urbanizada de pombais, ou casinholas habitadas do êxodo interiorano; povoada de veados de luxo ou simples viciados na inversão dos locais de prazer; vejo-a na falsa vivência dos coquetéis, das uiscadas e das festas de caridade; vejo-a no comércio com o nascimento de Jesus e com as mães, merecedoras pelo menos de um pouco de respeito; vejo-a despudorada, meninas sem roupas, por deboche, meninas pobres do mesmo jeito por miséria.
Vejo-a em uma imensa putaria de homens e mulheres, com as devidas exceções; vejo-a violenta, estúpida, deseducada – tipo de-baixo-da-ponte, alguns felizardos da vida ociosa à custa de golpes e falcatruas e outros tantos no repasto oficial da República sem freios.
(Arimathea Tito Filho, in Teresina, Meu Amor, fragmentos, 1ª. edição, 1973, COMEPI)
A única variação da construção, independente de mudança semântica mas preservando a correção gramatical, NÃO é coerente:
O homem matou a caça.
A caça matou o homem.
O homem a caça matou.
Matou o homem à caça.