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Em “Morre-se de porco” (linha 24), o termo “se” consiste em...

Texto para os itens de 1 a 20.


1 ____ Quando os jornais anunciaram para o dia 1.o deste mês uma parede de açougueiros, a sensação que tive foi muito

diversa da de todos os meus concidadãos. Vós ficastes aterrados; eu agradeci o acontecimento ao Céu. Boa ocasião para

converter esta cidade ao vegetarismo.

4 ____ Não sei se sabem que eu era carnívoro por educação e vegetariano por princípio. Criaram-me a carne, mais carne,

ainda carne, sempre carne. Quando cheguei ao uso da razão e organizei o meu código de princípios, incluí nele o

vegetarismo; mas era tarde para a execução. Fiquei carnívoro. Era a sorte humana; foi a minha. Certo, a arte disfarça a

7 _ hediondez da matéria. O cozinheiro corrige o talho. Pelo que respeita ao boi, a ausência do vulto inteiro faz esquecer que

a gente come um pedaço de animal. Não importa, o homem é carnívoro.

____ Deus, ao contrário, é vegetariano. Para mim, a questão do paraíso terrestre explica-se clara e singelamente pelo

10 _ vegetarismo. Deus criou o homem para os vegetais, e os vegetais para o homem; fez o paraíso cheio de amores e frutos, e

pôs o homem nele. Comei de tudo, disse-lhe, menos do fruto desta árvore. Ora, essa chamada árvore era simplesmente

carne, um pedaço de boi, talvez um boi inteiro. Se eu soubesse hebraico, explicaria isto muito melhor.

13 ____ Vede o nobre cavalo! o paciente burro! o incomparável jumento! Vede o próprio boi! Contentam-se todos com a

erva e o milho. A carne, tão saborosa à onça, — e ao gato, seu parente pobre, — não diz coisa nenhuma aos animais amigos

do homem, salvo o cão, exceção misteriosa, que não chego a entender. Talvez, por mais amigo que todos, comesse o resto

16 _ do primeiro almoço de Adão, de onde lhe veio igual castigo.

____ Enfim, chegou o dia 1.o de março; quase todos os açougues amanheceram sem carne. Chamei a família; com um

discurso mostrei-lhe que a superioridade do vegetal sobre o animal era tão grande, que devíamos aproveitar a ocasião e

19 _ adotar o são e fecundo princípio vegetariano. Nada de ovos, nem leite, que fediam a carne. Ervas, ervas santas, puras, em

que não há sangue, todas as variedades das plantas, que não berram nem esperneiam, quando lhes tiram a vida. Convenci

a todos; não tivemos almoço nem jantar, mas dois banquetes. Nos outros dias a mesma coisa.

22 ____ Não desmaieis, retalhistas, nesta forte empresa. Dizia um grande filósofo que era preciso recomeçar o

entendimento humano. Eu creio que o estômago também, porque não há bom raciocínio sem boa

digestão, e não há boa digestão com a maldição da carne. Morre-se de porco. Quem já morreu de alface? Retalhistas, meus amigos, por amor

25 _ daquele filósofo, por amor de mim, continuei a resistência. Os vegetarianos vos serão gratos.


Machado de Assis. A semana. In: Obra Completa de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, v. III, 1994. Internet: <machado.mec.gov.br>.


Acerca dos aspectos gramaticais e dos sentidos do texto apresentado, julgue os itens de 9 a 20.

Em “Morre-se de porco” (linha 24), o termo “se” consiste em um índice de indeterminação do sujeito.


C

Certo


E

Errado