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Texto 11 para responder às questões 79 e 80.
1--------Sou um homem arrasado. Doença! Não. Gozo
-----perfeita saúde. Quando o Costa Brito, por causa de duzentos
-----réis que me queria abafar, vomitou os dois artigos, chamou
4----me doente, aludindo a crimes que me imputam. O Brito da
-----Gazeta era uma besta. Até hoje, graças a Deus, nenhum
-----médico me entrou em casa. Não tenho doença nenhuma.
7----O que estou é velho. Cinquenta anos pelo S. Pedro.
-----Cinquenta anos perdidos, cinquenta anos gastos sem
-----objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros. O resultado
10---é que endureci, calejei, e não é um arranhão que penetra esta
-----casca espessa e vem ferir cá dentro a sensibilidade
-----embotada.
13-------Cinquenta anos! Quantas horas inúteis! Consumir-se
-----uma pessoa a vida inteira sem saber para quê! Comer e
-----dormir como um orco! Levantar-se cedo todas as manhãs e
16---sair correndo, procurando comida! E depois guardar comida
-----para os filhos, para os netos, para muitas gerações. Que
-----estupidez! Que porcaria! Não é bom vir o diabo e levar
19---tudo?
1--------Levanto-me, procuro uma vela, que a luz vai apagar-se.
-----Não tenho sono. Deitar-me, rolar no chão até a
22---madrugada, é uma tortura. Prefiro ficar sentado, concluindo
-----isto. Amanhã não terei com que me entreter.
1--------De longe em longe sento-me fatigado e escrevo uma
25---linha. Digo em voz baixa:
26---- Estraguei a minha vida, estraguei-a estupidamente.
----------------------------------RAMOS, Graciliano. São Bernardo.
-------------São Paulo: Editora Martins Fontes, 1970, com adaptações.
Acerca do narrador, de Graciliano Ramos e de São Bernardo, assinale a alternativa correta.
Por meio de linguagem reduzida ao essencial, como ocorre em outras obras de Graciliano Ramos, chega à consciência do narrador que sua ânsia desenfreada por trabalhar para acumular fortuna foi benéfica e o levou a construir um patrimônio que pode assegurar até mesmo a vida dos seus netos, ajudando sua família a sair de uma condição de miséria.
Acompanhando a natureza do personagem Paulo Honório, tudo em São Bernardo é seco, bruto e cortante.
Em São Bernardo, Paulo Honório, no fim da vida, é a mesma pessoa, o que corrobora as teorias deterministas que predominam no romance do século 20.
Paulo Honório sente-se arrependido por ter tratado Madalena de forma desrespeitosa e escreve o livro São Bernardo para se redimir e poder ajudar, como pretendia a esposa, os funcionários da fazenda.
Rodeado de funcionários e amigos, neste trecho da obra, Paulo Honório consome as horas recordando sua vida e relatando seus momentos felizes e de cumplicidade com Madalena em São Bernardo.