

Seu próximo nível começa aqui
Seu desenvolvimento não pode ter limites. Garanta sua Assinatura Ilimitada e libere uma preparação completa com os melhores professores do Brasil.
Leia o texto, para responder às questões de números 01 a 10.
A face de tudo
Vemos formas familiares em nuvens no céu. A borra do café poderia indicar o futuro. Profissionais da área do comportamento identificam algumas características das pessoas a partir da leitura de manchas: o teste de Rorschach. De forma poética, aleatória, delirante ou científica, damos sentido ao que percebemos.
Vamos aprofundar. Algumas imagens enviadas do planeta Marte foram lidas como rostos. Identificar faces em tudo tem até nome na língua portuguesa: pareidolia. É um fenômeno psicológico. Procuramos formas prévias que facilitem o funcionamento da mente. Gostamos da repetição de padrões e somos pródigos em encontrar nossas referências em tudo. Pronto: agora você sabe que sofre, como todo ser humano, de pareidolia.
Exemplo? No Hemisfério Norte do planeta Marte, há uma região chamada de Cydonia Mensae. Quando a sonda da Nasa fez fotos da área, em 1976, apareceu um rosto nítido. Era a evidência de uma civilização marciana. Mais tarde, com maior nitidez, vimos que as interpretações eram um caso de pareidolia.
Em seu texto mais difundido, O Existencialismo É um Humanismo, Jean-Paul Sartre adverte: somos nós que interpretamos os sinais a partir de desejos e de questões prévias. Sofremos de uma pareidolia crônica.
As profecias são, sempre, confirmatórias de si mesmas. Busco, no futuro, algo que comprove o passado. O exercício mais bizarro são as centúrias de Nostradamus. Textos fechados, sem sentido lógico e abertos à subjetividade. De repente, zás, surge um fato que poderia ser a profecia. Pronto, repete-se a pareidolia permanente na busca de uma face possível a ser identificada.
Profecias são como nuvens: as formas são determinadas pelo observador e variam de acordo com seu repertório, alcoolização, equilíbrio mental ou uso de cannabis. Detestamos o vazio de sentido e de formas. Amamos ver rostos, sequências lógicas, profecias e coisas anunciadas. Gostamos tanto que as criamos.
Faço reflexões sobre a construção daquilo que chamamos, em história, de teleologia. A tendência é forte: criamos um sentido prévio para os acontecimentos, um lugar de destino, uma necessidade insuperável de apontar para um vetor lógico no emaranhado aleatório dos fatos.
Gostamos de dar sentido às coisas, o vazio e o aleatório enchem a alma humana de pânico. Amamos profecias, pois elas parecem indicar que, em algum lugar, existe um roteiro traçado e prévio. Talvez temamos a liberdade e o caos mais do que um sentido fixo e imutável. Se não escolhi, e as coisas aconteceram como deveria ser, posso reconhecer os rostos de Marte e da História. Tudo estava escrito, maktub universal, fatalismo consolador.
(Leandro Karnal. Diário da Região, 18.09.2022. Adaptado)
Assinale a alternativa na qual a palavra que está empregada para fazer referência a um termo precedente, como ocorre no enunciado “De forma poética, aleatória, delirante ou científica, damos sentido ao que percebemos”.
Pronto: agora você sabe que sofre, como todo ser humano, de pareidolia.
Mais tarde, com maior nitidez, vimos que as interpretações eram um caso de pareidolia.
Gostamos tanto que as criamos.
Talvez temamos a liberdade e o caos mais do que um sentido fixo e imutável.
Sartre adverte: somos nós que interpretamos os sinais a partir de desejos e de questões prévias.