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Texto para as questões de 16 a 25.
1____Há muito tempo, quando eu me preparava para
tirar a carteira de motorista, o instrutor que me exercitava,
incompreensivelmente, num jipe de alavancas duríssimas,
4 fazia-me constantes recomendações, que revelavam as suas
tendências filosóficas.
_____Assim, como eu lhe perguntasse, um dia, por que
7 me exercitava naquele veículo obsoleto que eu jamais
pretendia dirigir, respondeu-me que aquilo me obrigava a
compreender melhor o mecanismo do carro e, depois
10 daquelas duras provas, eu sentiria macias como cetim todas
as outras alavancas: era preciso padecer com aquela cruel
disciplina, mas as compensações logo se fariam
13 evidentes — o que fez com que eu passasse a sentir aquele
adestramento mecânico como uma nova espécie de
exercício espiritual. E conformei-me.
16___Conversa vai, conversa vem, advertiu-me o
filosófico instrutor sobre o uso moderado da buzina, a qual,
segundo ele, não servia para quase nada; era uma espécie
19 de descarga nervosa do motorista em apuros ou uma forma
de exibição vaidosa, principalmente essas (que ele
abominava) com várias vozes, que pretendem formar uma
22 melodia e servem apenas para produzir uma irritação
auditiva (o instrutor, além de filosófico, era musical).
_____Como eu lhe falasse a respeito de marcas de
25 automóveis, deu-me uma série de conselhos, que até
pensei em compendiar, mas o tempo passou e muitas de
suas palavras se perderam.
28___Não me esqueci, porém, das suas principais
observações. Disse-me que eu não devia comprar um carro
muito grande, o que só me daria atrapalhações para
31 arranjar local de estacionamento e teria um ar insolente,
que ele considerava em desacordo com a minha pessoa.
Aconselhava-me, pois, um carro de bom tamanho, sóbrio,
34 sem nenhum exagero de cor ou feitio.
_____Depois, advertiu-me sobre as boas maneiras, de
que a maioria dos motoristas se esquece. Há uma ética na
37 direção de veículo que — dizia-me ele — se confunde com
a própria conduta humana.
_____Chamava-me atenção para os carros que íamos
40 encontrando: conhecia-se o bom motorista pelo estado de
conservação de seu veículo, pela segurança de sua direção,
pelo seu comportamento: não querer ser obstinadamente
43 o primeiro, não forçar os colegas que vão em determinada
marcha, não andar em velocidade proibida, não andar em
linha sinuosa, não deixar de diminuir a marcha nas curvas,
46 não avançar os sinais, respeitar as vias preferenciais,
observando o aviso das esquinas...
_____Um dia, fez-me esta comparação memorável:
49 “Dirigir um automóvel é como dirigir um país: não é preciso
correr, nem buzinar, nem querer fazer coisas impossíveis.
Os motoristas têm os seus regulamentos, como os países
52 têm as suas leis. Se todos respeitarem os regulamentos, não
há colisões, atropelamentos, desastres. Mas, em geral, as
pessoas aprendem a pôr o carro em movimento, metem o
55 pé no acelerador, saem por aí como loucas e vão parar na
delegacia ou no necrotério. É como no governo”.
_____E como eu me queixasse dos calos que já tinha na
58 mão, de lidar com aquele jipe duríssimo, consolou-me
dizendo que não era esforço perdido, que para bem viver é
preciso bem sofrer.
61___E eu pensei comigo que era um sábio, aquele
modesto instrutor.
Cecília Meireles. Ainda sobre automóveis. 1964.
Internet: <www1.folha.uol.com.br> (com adaptações).
A palavra “abominava” (linha 21) está empregada no texto com o mesmo sentido de
detestava.
considerava.
amava.
desentendia.
incomodava.