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Texto
A ESCRITA NÃO É “A LÍNGUA”
1 ___Uma longuíssima tradição de vinte e cinco séculos se impregnou de tal modo na cultura
2 ocidental que a jovem ciência linguística, que conta pouco mais de 150 anos, ainda peleja para fazer valer
3 seus postulados, muito mais lógicos e racionais. É a ideia (ou, melhor, a ideologia) de que "a língua" é
4 uma entidade muito restrita, acessível a poucos iluminados, aqueles grandes escritores (todos homens, é
5 claro) que se tornaram os "clássicos do idioma". Não é à toa que o português é chamado de "a língua de
6 Camões", o espanhol de "a língua de Cervantes", o italiano de "a língua de Dante", o inglês de "a língua
7 de Shakespeare" e por aí vai. A escrita literária, desde o surgimento dos estudos gramaticais no mundo de
8 língua grega, trezentos anos antes de Cristo, tem sido vítima dessa apropriação ideológica. Qual é o
9 problema? O grande escritor não é grande porque respeita mais ou desobedece menos as regras da
10 gramática tradicional. O grande escritor é aquele que vai além do normal e do normativo, que tenta dar
11 vazão à sua sensibilidade, exprimir de modo novo e surpreendente o que a realidade lhe comunica. É
12 preciso libertar a língua usada pela imensa maioria das pessoas do peso insuportável de ser comparada
13 aos usos feitos pelos grandes escritores. As pessoas não podem até hoje ser oprimidas e reprimidas pela
14 culpa absurda de não falar tal como Machado de Assis escreveu seus romances no final do século 19!
15 ___A escrita literária é só uma parcela microscópica de todos os múltiplos e variados usos
16 possíveis da língua. Ela não serve para a descrição gramatical da língua, de como ela funciona, das regras
17 em vigor. Para a ciência linguística, a língua é, primordialmente, aquilo que as pessoas falam no dia a dia,
18 em suas interações normais, espontâneas, na construção de sua identidade pessoal e da identidade de sua
19 comunidade. Por isso é que não se pode dizer que em Brasil e Portugal "se fala a mesma língua". Não,
20 não se fala: brasileiros e portugueses seguem regras totalmente diversas na hora de falar, têm coisas que
21 só existem lá e não existem aqui e vice-versa. Quando falamos, contribuímos para a construção única e
22 exclusivamente da nossa identidade social e cultural. É maravilhoso podermos ler a produção literária
23 portuguesa, mas isso não significa que se trate "de uma mesma língua". Basta ler os textos em voz alta
24 para se dar conta disso!
25 ___Durante mil anos, na Europa, a única língua de cultura foi o latim clássico: os letrados (só
26 homens, é claro!) já falavam suas línguas maternas na vida diária, mas elas não eram consideradas dignas
27 de estudo, de ensino e de aparecer na escrita respeitada. Foi preciso esperar o Renascimento para que isso
28 acontecesse. Pois é assim que nos encontramos hoje no Brasil, numa Idade Média linguística: falamos o
29 português brasileiro, uma língua viva, dinâmica, com gramática própria, mas ainda nos cobram o ensino
30 e o uso de um "latim clássico", que é o português literário consagrado antigo. E dá-lhe ensinar conjugação
31 verbal com "vós", regências verbais que não significam nada para nós, usos de pronomes que não
32 correspondem ao que a gente realmente sente e quer expressar. Já passou da hora da nossa língua (e não
33 "de a nossa língua", por favor!) ocupar de direito o lugar que já ocupa de fato: o de língua materna de
34 mais de 200 milhões de pessoas, uma das mais faladas do mundo, num País com crescente importância
35 geopolítica e econômica mundial. "E deixe os portugais morrerem à míngua!”.
BAGNO, Marcos. A ESCRITA NÃO É A LINGUA. In: CAROS AMIGOS. Nº 226 / janeiro 2016. p.7. –
Em, “O grande escritor não é grande” (L. 09), pode-se afirmar corretamente que:
A primeira ocorrência do vocábulo “grande” qualifica um nome indicando dimensão.
Exerce a mesma função sintática nos dois casos em que ocorre.
É um adjetivo uniforme nos dois casos.
Em nenhuma das ocorrências, admite a flexão em grau.