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Os pronomes “isto” (linha 23) e “isso” (linha 25) fazem...

Texto para os itens de 1 a 17.


1 ____ Quem tem ouvidos, ouça. Nove, dez, onze horas,

meia-noite, pouco importa. É a hora em que os brasileiros

vão dormir. Escuta o formidável silêncio, entrelaçado de

4 casa a casa, de rosto a rosto. Preste mais atenção: é a hora

em que os brasileiros dormem. Mas os brasileiros não estão

dormindo. Estão insones e secos, estirados em catres e

7 redes, camas de ferro, leitos de madeira e aço, colchões de

espuma de borracha. Não ressonam, estão de olhos

abertos, como bichos no escuro do mato. Não dormem,

10 pensam. Pensando na morte? Há muito que os brasileiros

não pensam mais na morte. Lembrando tempos passados?

O passado deixou de existir.

13 ___ A fumaça de cigarros e cachimbos abafa os quartos,

onde os brasileiros pensam, de olhos vermelhos, músculos

doídos, olhos acesos. Na Amazônia, no Nordeste, nos

16 descampados do Oeste, na região Centro-Sul de nosso

dissipado orgulho industrial, os brasileiros estão insones e

pensam com uma fatalidade triste e estúpida. Há muito que

19 se esqueceram do tricampeonato que não veio. Há muito

que não esperam qualquer vitória particular ou coletiva.

Pensam, mas nem chegam a buscar uma solução do

22 pensamento. É um pensamento espesso e pesado como

uma pedra; e significa humilhadamente isto: onde vou

arranjar o dinheiro?

25 ____ Hoje, quem não pensa isso, insone e duro, está

naturalmente desligado da difusa comunidade brasileira.

Não tem nada com o imenso resto da realidade coletiva.

28 ____ Ricos, remediados e pobres pensam todas as noites,

olhos acesos, quarto esfumaçado: onde vou arranjar o

dinheiro? Industriais, industriários, comerciantes,

31 comerciários, fazendeiros, funcionários civis e militares,

lavradores, homens do campo, o pensamento insone do

Brasil é este: onde vou arranjar o dinheiro?

34 ____ Falta sempre dinheiro. Falta dinheiro para pagar a

comida, o remédio, os empregados, o colégio, o enterro, o

banco, a prestação — e ninguém dorme. Repare na

37 expressão dos brasileiros, quando caminham sozinhos na

cidade e no campo: duros, chateados, alastrados desse

intolerável eczema que é a falta de dinheiro. Mas de boca

40 fechada — olhem bem —, eles estão todos de bico aberto.

Como galinhas perseguidas por um menino que se diverte

com um porrete em um dia de calor.


Paulo Mendes Campos. De bico aberto. In: O mais estranho dos países:

crônicas e perfis. São Paulo: Companhia das Letras,

2013, p. 178 (com adaptações).


Quanto aos aspectos semânticos e gramaticais do texto, julgue os itens de 6 a 17.

Os pronomes “isto” (linha 23) e “isso” (linha 25) fazem referência a uma mesma ideia no texto.


C

Certo


E

Errado