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A correção gramatical do texto seria mantida caso fosse...

Texto para os itens de 1 a 20.


1 Tendo irrompido na capital de certo país uma

epidemia de moléstia terrível que matava milhares de

pessoas por dia, a junta do governo se viu obrigada a fazer

4 o serviço compulsório de coveiros e requisitar palácios para

hospitais. Um médico modesto, mas sábio, passado o

flagelo, saiu de sua modéstia e escreveu, num jornal ou

7 numa revista de pouca importância, um artigo simples,

claro, sem arrebiques de péssima literatura pernóstica, sem

fumaças de ciência e de clínica, lembrando a conveniência

10 de se criarem mais hospitais públicos e situá-los em diversas

zonas da cidade, para sempre poderem eles atender à

população eficazmente, nas épocas normais e anormais.

13 Pouca gente leu o artigo do honesto facultativo, mas

todos os seus colegas o fizeram, sem que, entretanto, nada

dissessem logo.

16 Passa-se um mês, quando já todos estavam

esquecidos das palavras do bom esculápio sem trombetas,

bulha e matinada, apareceu, no principal jornal da cidade,

19 um artigo desmedido, escrito com o bolor de vocábulos

antigos, recheado de citações e exemplos de outras terras e

termos híbridos do grego e do hebraico, repetindo as

22 sugestões do velho prático que lembrara a criação de

hospitais semeados pela capital do país.

Apesar de o assunto ser o mesmo, sem discrepância

25 alguma, quem aventou a ideia pela primeira vez, cujo nome

era Mendonça, não foi citado.

Na câmara, um outro facultativo, que era deputado

28 muito famoso pela sua clínica nas altas rodas da cidade,

apresentou um projeto calcado nas ideias do doutor

Mendonça, mas não o citou, fazendo isso várias vezes com

31 o doutor plagiário daquele, que se chamava Cavalcante.

Os jornais, pelos seus cronistas, gabaram muito o

projeto e, em suas crônicas e tópicos, não se amedrontavam

34 em repetir os nomes do doutor Cavalcante e do deputado

doutor Azevedo.

Toda a gente ficou crente de que a ideia era do

37 doutor Cavalcante, e essa convicção ainda se tornou mais

forte quando apareceu uma crônica do doutor Juventa, num

popular jornal noturno, atribuindo toda a glória da iniciativa

40 aos seus dois colegas, Cavalcante e Azevedo.

Esse doutor Juventa era tido em grande conta, não

por ser verdadeiramente grande em qualquer coisa, apesar

43 de ser médico, advogado, poeta, literato, político,

estrategista etc.; era tido em grande conta por ser um

homem feliz — menos com os seus doentes, diziam os

46 maldosos.

Nada sabemos disso; e o certo, porém, é que o artigo

enterrou para sempre o nome do simplório doutor

49 Mendonça.

Assim são as coisas naquele país…


Lima Barreto. O pai da ideia. In: Toda crônica.

Rio de Janeiro: Agir, 2004, p. 121 (com adaptações).

A respeito dos sentidos e dos aspectos linguísticos do texto, julgue os itens de 9 a 20.

A correção gramatical do texto seria mantida caso fosse retirado o acento indicativo de crase no vocábulo “à” (linha 11).


C

Certo


E

Errado