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Leia o poema a seguir, extraído do livro “Morte e vida severina”, de João Cabral de Mel...

Leia o poema a seguir, extraído do livro “Morte e vida severina”, de João Cabral de Melo Neto.


O retirante resolve apressar os passos para chegar logo ao Recife


– Nunca esperei muita coisa,

digo a Vossas Senhorias.

O que me fez retirar

não foi a grande cobiça;

o que apenas busquei

foi defender minha vida

da tal velhice que chega

antes de se inteirar trinta;

se na serra vivi vinte,

se alcancei lá tal medida,

o que pensei, retirando,

foi estendê-la um pouco ainda.

Mas não senti diferença

entre o agreste e a caatinga,

e entre a caatinga e aqui a mata

a diferença é a mais mínima.

Está apenas em que a terra

é por aqui mais macia;

está apenas no pavio,

ou melhor, na lamparina:

pois é igual o querosene

que em toda parte ilumina,

e quer nesta terra gorda

quer na serra, de caliça,

a vida arde sempre com

a mesma chama mortiça.

Agora é que compreendo

por que em paragens tão ricas

o rio não corta em poços

como ele faz na Caatinga:

vive a fugir dos remansos

a que a paisagem o convida,

com medo de se deter,

grande que seja a fadiga.

Sim, o melhor é apressar

o fim desta ladainha,

fim do rosário de nomes

que a linha do rio enfia;

é chegar logo ao Recife,

derradeira ave-maria

do rosário, derradeira

invocação da ladainha,

Recife, onde o rio some

e esta minha viagem se fina.


Fonte: ELO NETO, João Cabral de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003. p. 186-187.


Sobre os versos, é INCORRETO afirmar que:


A

O retirante se dirige aos leitores, dizendo, como se estivesse desfiando uma ladainha, quais são suas pretensões ao se retirar.


B

Os desejos do retirante não são imensos, pois ele demanda apenas uma vida minimamente digna.


C

Nos versos “e quer nesta terra gorda / quer na serra, de caliça, / a vida arde sempre com / a mesma chama mortiça”, o retirante nos diz da efemeridade da vida humana, o que promove no poema uma crítica social e também uma reflexão existencial.


D

O fato de o rio não se deter nos remansos “a que a paisagem o convida” é o medo de que a sua vida pare; mas isso, no poema, não tem nada a ver com a vida do retirante.