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Menina– Ana Lúcia, seu pai ainda está viajando?– Está.–...

Menina


– Ana Lúcia, seu pai ainda está viajando?

– Está.

– Mentirosa! Sua mãe é desquitada.

Ficou impotente diante da palavra desconhecida. [...]

Desquitada. Passou dias tentando solucionar sozinha. Seria uma coisa como burra, feia? Não, não parecia. Flor? Flor parecia, mas não explicava nada: orquídeas, rosas, sempre-vivas, desquitadas... Parecia. “Mentirosa! Sua mãe é desquitada!” Tita dissera como quem diz o quê? o quê? o quê? sem-vergonha. Sim!, como quem diz sem-vergonha: olhando de frente e esperando um tapa.

[...]

– Mamãe, o que é desquitada? – atirou rápida com uma voz sem timbre.

[...]

– Desquitada é quando o marido vai embora e a mãe fica cuidando dos filhos.

[...] Bom, que desquitada não fosse um insulto. Bom mesmo. Deixava-a livre para pensar e não pensar, coisa tão difícil que

– Marido é o pai? – ela quis confirmar, conquistando áreas que as outras crianças tinham naturalmente. A mãe sorriu e confirmou.

Tita sabia dizer “papai” porque a mãe não era desquitada-ia Ana Lúcia aprendendo, descobrindo. Havia muita coisa em que pensar naquela conversa. Por exemplo: o que ela chama de marido é o que eu chamo de pai. Essa é uma diferença entre mãe e filha.

Ela sabia cada vez mais.


ÂNGELO, Ivan. In: Os cem melhores contos brasileiros do século.

Rio de Janeiro: Objetiva, 2009. p. 261 (Adaptado).


A sinonímia entre “marido e pai”, nesse contexto, dá-se em função da variação linguística


A

psicológica.


B

estilística.


C

histórica.


D

regional.


E

etária.