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Em 2007, Bridget Stutchbury, bióloga da York University em...

Texto para as questões de 1 a 10

Andorinhas-azuis intrigam cientistas ao fazerem pequena ilha da Amazônia de casa


1 Em uma minúscula ilhota no meio do rio Negro, no estado do Amazonas, uma equipe de cientistas em duas lanchas examina

atentamente o céu. Conhecida como Ilha do Comaru, ela está submersa, como acontece todos os anos em março, e apenas as

copas das árvores aparecem acima da superfície.

Um grupo de andorinhas-azuis passa zunindo, cortando o ar pesado e úmido da região e, logo acima das lanchas e da ilha,

5 um bando de pontinhos negros começa a se acumular, como nuvens de aves.

Elas formam então um redemoinho sincronizado. Poucos minutos depois, porém, caem como uma chuva de granizo negro,

incrustando as árvores, enquanto o seu som se intensifica e ocupa todo o começo da noite.

Em questão de minutos esse espetáculo termina, deixando o céu novamente imóvel.

A ilha de apenas cinco hectares – quase o tamanho do Estádio do Morumbi – atrai uma quantidade enorme dessas

10 andorinhas de penugem cintilante. Por receber a visita de aproximadamente 250 mil indivíduos de fevereiro a abril, é considerada

um dos maiores refúgios da espécie já descobertos.

O papel que esse lugar desempenha na migração do pássaro intriga os cientistas. Comaru pode ser o ponto de partida,

suspeitam os pesquisadores, para muitos dos 9,3 milhões de andorinhas-azuis que se encaminham da América do Sul para a

América do Norte anualmente.

15 Mario Cohn-Haft, curador de aves do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), em Manaus, também acredita

que a ilha possa ser fundamental para entender o declínio constante da espécie. "É a maior janela que temos para o que as

andorinhas-azuis fazem na América do Sul", diz.

Estima-se que a população reprodutora norte-americana dessas aves tenha diminuído 25% desde 1966. Em algumas áreas,

a queda foi ainda mais acentuada. Em outras, as aves desapareceram completamente.

20 Pouco se sabe sobre os desafios que a espécie encontra quando viaja. "Se pudermos rastrear seus movimentos, descobrir

o que estão comendo e analisar se foram contaminados por pesticidas e outros poluentes, podemos aprender algo sobre como

estão se saindo aqui", afirma.

Cohn-Haft, junto a cientistas americanos e brasileiros, realizou em 2022 o estudo mais abrangente já feito sobre Comaru,

em busca de informações que possam ajudar a garantir o futuro da espécie.

25 Na América do Norte, a área de reprodução da ave se estende do Canadá ao México, mas se concentra principalmente a

leste das Montanhas Rochosas, nos Estados Unidos.

As andorinhas-azuis fazem ninhos exclusivamente em estruturas que os humanos erguem para recebê-los – de cabaças

ocas a miniaturas de "condomínios". Os pássaros muitas vezes voltam para o mesmo quintal, e até mesmo para a mesma estrutura,

todos os anos, o que facilita a pesquisa com auxílio de dispositivos de rastreamento, que devem ser recuperados junto com as

30 valiosas informações que trazem.

Se os pássaros chegam um pouco atrasados, "nosso telefone toca sem parar com pessoas fora de si, preocupadas que

seus bebês não voltaram", diz Joe Siegrist, presidente da Purple Martin Conservation Association, organização sem fins lucrativos

de proteção e pesquisa da espécie nos EUA.

Mas essa relação nem sempre foi próxima assim. Cavidades naturais, como espaços ocos em árvores, já foram colônias

35 de andorinhas-azuis. A perda delas, porém – juntamente com a competição de espécies agressivas e não nativas como o

estorninho europeu –, tornou as aves "100% dependentes de humanos fornecendo moradia para que eles se reproduzam", diz

Siegrist.

Embora já tenham sido estudadas extensivamente na América do Norte, o conhecimento científico sobre as andorinhas-

azuis diminui quando elas voam para o Sul. Exatamente para onde vão, quais rotas tomam e qual hábitat encontram ao longo do

40 caminho permanecem como mistérios.

As andorinhas-azuis, por serem insetívoros aéreos (caçam insetos voando), estão entre os grupos de aves de declínio mais

rápido, já que as populações de insetos também diminuíram pelo uso de pesticidas, entre outras causas. O risco para essas aves

é ainda agravado por suas longuíssimas jornadas de migração.

Elas são avistadas há muito tempo na Amazônia, mas os primeiros estudos mais aprofundados começaram poucos anos

45 atrás. Em 2007, Bridget Stutchbury, bióloga da York University em Toronto, Canadá, equipou os primeiros pássaros canoros

(aqueles de cantos harmoniosos) – 20 andorinhas-azuis e 14 tordos-dos-bosques – com geolocalizadores.

(...)

Este é o terceiro ano que Cohn-Haft e Siegrist estudam as aves em Comaru. Eles capturaram cerca de cem pássaros de

cada vez, e a maioria deles parece estar preparada para seguir para o hemisfério Norte – com penas novas, melhores para o voo,

50 músculos reforçados e estoques de gordura para a viagem.

Etiquetas de rádio ajustadas às aves em temporadas passadas, detectadas pela rede de receptores dos cientistas,

mostraram que permanecem no máximo duas semanas. Isso dá a Cohn-Haft a confiança de que muito mais indivíduos passam

pela região do que a contagem até hoje estimou. Para ele, o número deve estar mais perto de 1,5 milhão.

O fato de uma fração tão grande de andorinhas-azuis do mundo depender de um único local suscita preocupações. Embora

55 atualmente não haja planos de construir uma represa no rio Negro, uma futura hidrelétrica, por exemplo, poderia inundar a ilha que

serve de poleiro. "Essa densidade populacional os torna vulneráveis", explica Siegrist.

A pesquisa em Comaru também pode apontar para preocupações de conservação mais globais. O mercúrio de fontes

naturais e humanas, como as atividades de garimpo, pode percorrer a cadeia alimentar até chegar às andorinhas. Por isso,

Hingst-Zaher e Buck investigam se a contaminação por esse metal pesado pode afetar os sistemas endócrinos das aves, reduzindo

60 as reservas de gordura e tornando-as menos aptas para migrar.

Os cientistas esperam que quaisquer descobertas que fizerem ajudem a entender o que está por trás do declínio de outros

pássaros canoros, especialmente outros insetívoros aéreos.

Já é quase meia-noite quando os pesquisadores acabam de processar o último pássaro no laboratório montado no

restaurante flutuante. Dois estudantes de pós-graduação entram cautelosamente em um barco levando os animais em sacos de

65 pano.

Cohn-Haft, ansioso, pede que eles se apressem. Os pássaros devem voltar ao poleiro o quanto antes para ter uma boa

noite de descanso – afinal, eles têm uma longa jornada pela frente.


(Daniel Grossman, Dado Galdieri. https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2022/12/andorinhas-azuis-intrigam-cientistas-ao-fazerem-pequena-ilha-da-amazonia-de-casa.shtml. 28.dez.2022)

Em 2007, Bridget Stutchbury, bióloga da York University em Toronto, Canadá, equipou os primeiros pássaros canoros (aqueles de cantos harmoniosos) – 20 andorinhas-azuis e 14 tordos-dos-bosques – com geolocalizadores. (linhas 45 e 46)


Os vocábulos sublinhados acima foram grafados corretamente, seguindo a regra convencionada para o uso do hífen.


Assinale a alternativa em que isso não tenha ocorrido.


A

pé-de-moleque


B

mão de obra


C

mico-leão-dourado


D

tartaruga-marinha


E

primeiro-sargento