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TEXTO I
Um ano humano
1Na minha rede de relações, o desejo mais comum para 2023 foi este: “Que seja leve”. No dia 1º de
janeiro, o clima já era outro. Sopraram ventos de esperança e os desejos já estavam mais conectados
a uma espécie de convicção de que este ano será mesmo diferente. Oxalá!
2022 foi pesado. Anunciou-se uma “volta”, sem saber exatamente para o que se voltava. Retomamos
5dinâmicas de trabalho e convívio social, ignorando que passamos por dois anos de isolamento, por
centenas de milhares de perdas e lidando com a angústia diante de um governo antidemocrático e
desumano.
A esperança depositada em 2023 não é vã. Temos uma radical transformação no comando do país,
que deve reverberar para as vidas de cada um de nós. Mas o suave, o brando e o leve não virão se
10não sairmos do automático. Precisamos nos empenhar em tarefas de humanização. Precisamos —
urgentemente — desacelerar.
Desacelerar não é ser mais devagar. É recobrar nossos sentidos, nos reconhecer como pessoas. É se
perguntar quando a velocidade faz sentido e quando não faz, mas estamos correndo apenas porque
estamos no automático.
15 -Precisamos entender que a cultura da velocidade a que estamos submetidos é também a cultura do
desenvolvimento desenfreado, do consumo exacerbado, do multitarefa, do avanço tecnológico
irresponsável, do excesso (des)informativo e de uma relação insustentável com a natureza e com o
planeta.
Todos estes motores estão conectados e nos conduzem a um suposto progresso em um movimento
20 -frenético de paralisia (ou frenesi em suspensão), como sugere o alemão Hartmut Rosa. Estamos em
um permanente movimento sem sentido. E isso nos dá uma sensação de esgotamento coletivo e
individual.
O sociólogo e crítico literário Antonio Candido afirma que a luta pela justiça social começa por uma
reivindicação do tempo. Por isso o desacelerar não é uma opção individual, mas uma saída coletiva.
25 -A sociedade do cansaço (assim nomeada por Byung-Chul Han) e o regime 24/7 produzem ambientes
e encontrar o que resgate sentido de pertença, convivências e comunidades. Isso é politizar a agenda
do cuidado e da desaceleração, questionando a concepção eurocêntrica de bem-estar e conectando-a
à alternativa sistêmica do bem viver.
30 -Existem caminhos sistêmicos para assumir nosso acordo com o suave, o leve e o brando que
desejamos nas mensagens de fim de ano. Eles passam por um pacto com o decrescimento, a
boniteza, a amorosidade e as comunidades que encontra ressonância em um projeto de país em
reconstrução.
Michelle Prazeres
(Adaptado da Folha de São Paulo, 06 de janeiro de 2023)
Com base no Texto I, responda às questões de números 1 a 7.
“No dia 1º de janeiro, o clima já era outro. Sopraram ventos de esperança e os desejos já estavam mais conectados a uma espécie de convicção de que este ano será mesmo diferente” (ℓ. 1 a 3). A relação de sentido estabelecida entre as duas frases do trecho pode ser expressa pelo conectivo:
à medida que
ao passo que
ainda que
porque