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Instrução: As questões de números 01 a 10 referem-se ao texto abaixo. Os destaques ao longo do texto estão citados nas questões.
A língua do pensamento que inquieta pensadores e cientistas
Por Aldo Bizzocchi
01 Por mais distintas que as línguas sejam, praticamente tudo que pode ser dito em uma
02 língua pode ser dito nas demais. Certas palavras não encontram equivalentes exatos em outros
03 idiomas, as estruturas sintáticas são muito diferentes, mas o sentido geral das frases tende a
04 permanecer o mesmo. Tanto que, salvo em traduções de poesia, em que a expressão é tão
05 importante quanto o conteúdo, o que se traduz num texto é o seu sentido geral e não o
06 significado termo a termo, a chamada tradução literal, que muitas vezes conduz a enunciados
07 sem sentido.
08 Essa possibilidade quase irrestrita de tradução é possível porque o “sentido geral” a que
09 estou me referindo é algo que transcende a língua. Trata-se de uma representação mental que
10 fazemos da realidade e prescinde de palavras, mas tampouco se dá por imagens ou outros
11 símbolos dotados de um significante material. Tanto que cegos de nascença, surdos-mudos e
12 indivíduos privados da linguagem por alguma patologia são perfeitamente capazes de pensar e
13 compreender a realidade.
14 Também comprova-se a existência dessa representação mental puramente abstrata em
15 situações como quando não recordamos uma palavra, mas, mesmo assim, sabemos o que
16 queremos dizer, ou quando alguém diz algo e, tempos depois, lembramos o que foi dito, mesmo
17 tendo esquecido as palavras exatas. A ideia de que pensamos independentemente da língua que
18 falamos, e mesmo de outros sistemas simbólicos (sons, gestos, desenhos e esquemas), é bem
19 antiga e tem inquietado muitos pensadores e cientistas ao longo do tempo.
20 Afirmando que só é possível pensar por meio de algum tipo de linguagem, não importando
21 a sua natureza, e inspirados na doutrina atomista dos gregos Leucipo e Demócrito, Bertrand
22 Russell e Ludwig Wittgenstein propuseram que qualquer conceito linguístico pode ser decomposto
23 em conceitos cada vez mais simples, até o ponto em que não possam mais ser decompostos.
24 Decorre dessa teoria (embora os próprios autores não tenham dito isso) que o
25 pensamento seria uma combinação sintática de conceitos que, por sua vez, seriam “pacotes”
26 estruturados de atributos mínimos.
27 Fazendo uma analogia, fatos do mundo real são interações entre objetos formados de
28 átomos ou de partículas ainda menores. Se o pensamento é a representação mental da realidade
29 exterior, então a mente seria povoada por “objetos” (conceitos) compostos de partículas mínimas
30 hierarquicamente organizadas, as quais interagem por meio de relações lógicas e abstratas. Isso
31 explicaria por que substância, qualidade e ação são categorias universais e por que classes como
32 substantivo, adjetivo e verbo existem em todas as línguas – ainda que, no plano da superfície
33 discursiva, possam estar até mascaradas em algumas delas.
34 Paralelamente, os estudos de Noam Chomsky sobre a aquisição da linguagem e a
35 competência linguística demonstraram que, por mais pobres que sejam os estímulos vindos do
36 meio, toda criança aprende a falar muito cedo e é capaz de formular corretamente frases que
37 jamais ouviu antes.
38 Para Chomsky, há um inatismo na linguagem: não importa em qual língua a criança seja
39 criada nem quanto (ou quão pouco) esforço os adultos circundantes dediquem a educá-la, ela
40 sempre aprende a dominar o código com total competência (não estou falando aqui de dominar a
41 norma culta, que, por sinal, a maioria das línguas não tem, mas de ser plenamente capaz de
42 comunicar-se com seus semelhantes).
43 Mas, se não pensamos só com palavras, a Gramática Universal, sendo uma plataforma de
44 processamento linguístico, provavelmente ainda não é o sistema de base do pensamento: deve
45 haver um sistema ainda mais básico, que permite “rodar” não só línguas, mas todos os demais
46 códigos simbólicos já inventados ou por inventar.
(Disponível em: https://www.revistaeducacao.com.br/ – texto adaptado especialmente para esta prova.)
No trecho, “Tanto que cegos de nascença, surdos-mudos e indivíduos privados da linguagem (1) por alguma patologia (2) são perfeitamente (3) capazes (4) de pensar e compreender a realidade (5)” (l. 11-13), assinale a alternativa que indica o termo que exerce a função de núcleo do predicativo do sujeito.
1.
2.
3.
4.
5.